sexta-feira, 9 de maio de 2014

Nameless Chronicles capt. II-2

Se você ainda não conhece a série, leia: Prólogo, Capt. I, Capt. II-1. Romance, thriller, aventura e sobrenatural. Confira.



Abel
Na noite anterior, em algum lugar nos Pirineus

   As tochas crepitavam na parede do pátio central a céu aberto do velho castelo. Abel olhava para o céu estrelado acima de sua cabeça, enquanto segurava a grande espada de aço forjado à sua frente, apoiando as duas mãos no cabo e a ponta no chão. Ao seu redor, haviam mais homens igualmente paramentados. Vestindo cotas de malha e por cima um manto branco, com uma cruz de malta vermelha no peito. Eles são a sagrada ordem dos cavaleiros templários. Hoje, não mais travam cruzadas, nem tampouco empunham uma espada para lutar; mas algumas vezes ao ano, reúnem-se para celebrar as tradições da ordem e relembrar o seu propósito maior.
  Eles estão em pleno século XXI, mas qualquer pessoa desavisada que adentrasse o local, poderia muito bem pensar ter voltado no tempo para a era medieval. Próximos à parede, haviam vários homens, vestidos como cavaleiros medievais, e à frente deles, um senhor com um manto branco e um velho livro com uma capa de couro na mão, aparentando ser muito antigo.
—Hoje eu reuni todos vocês aqui, não na qualidade de grão mestre dos cavaleiros templários de São João, mas como um dos nove. - o velho senhor, abaixou um pouco a cabeça em direção ao velho livro e voltou-se novamente para os cavaleiros, que observavam silenciosos - Sei que muitos de vocês têm seus negócios e suas famílias, cada um em sua respectiva cidade, e talvez tenham estranhado uma reunião nessa época do ano.
   Lá fora o vento uivava. Dizem que a noite é mais escura pouco antes do amanhecer. Talvez essa fosse a hora mais escura do mundo.
—Ao longo da história, os iniciados testemunharam a ascensão e queda de diversos impérios. A vida segue um ciclo inevitável, fluxo e refluxo, o princípio rítmico. - todos continuavam imóveis, como bons cavaleiros, mas seus olhos transpareciam muitas dúvidas quanto ao motivo da conversa.
—Sei que muitos de vocês acostumaram-se com a vida contemporânea, - prosseguiu - e tomam grande parte das histórias que lhes foram passadas como apenas fantasia ou metáfora. Mas agora é chegado o momento - parou e olhou lentamente para todos.
—Há vários milhões de anos, nascia a primeira civilização. Sua mãe, era Lilith; durante muito tempo eles reinaram, tiveram o seu auge. Mas como toda civilização, acabaram se corrompendo e foram varridos do planeta. - suspirou - Milhões de anos depois, nascia a nossa civilização, Eva era a sua mãe, assim como a civilização anterior, o homem teve o seu auge, - ergueu a mão direita, enquanto segurava o velho livro com a outra - como são sábios, quão grandes são as suas obras, se vangloriavam. Mas hoje chegou a hora em que a vida tomará o próximo passo no ciclo. - todos continuavam em silêncio, o vento murmurava como que em sofrimento - Como irmãos, compartilhamos o grande saber da vida, e guardamos os tesouros da humanidade. O que mais posso pedir de vós, se não que retornem para as suas famílias, cientes do que está acontecendo.
  Apesar de todos estarem estacados em suas posições, silenciosos; Abel, não aguentando ouvir tudo em silêncio, tomou a palavra:
—Grão-mestre. - interrompeu - Eu sei que durante todo esse tempo em que servimos a sagrada ordem, vimos e ouvimos coisas as quais pessoas leigas jamais sonhariam existir. Essas histórias que o mestre nos contou, já ouvimos antes, por que não haveriam de ser apenas metáforas? - O grão-mestre então virou-se para ele se aproximando.
—Abel, você não precisa acreditar em palavras ou em velhas histórias. - disse ternamente - O que o seu coração diz?
"Meu coração?" pensou Abel. De fato, desde algum tempo atrás, algo vinha lhe incomodando. Abel cresceu em um orfanato em Israel. Ele nasceu do relacionamento de um Palestino com uma Israelense. Devido à conflitos entre as duas nacionalidades e problemas com as famílias, ele acabou sendo deixado em um orfanato em Jerusalém. Matias, o grão-mestre da ordem templária, quando em visita ao local  durante uma peregrinação, sentiu uma grande compaixão para com aquele jovem de olhos grandes e brilhantes. Aquele menino tinha algo que chamou a atenção de Matias, o qual acabou o adotando.
  Abel cresceu ouvindo histórias e mais histórias sobre grandes segredos da humanidade, sobre ordens místicas e objetos sagrados. Aquele assunto instigava a sua imaginação e o atraía. Mais tarde com seus dezenove anos, foi introduzido à ordem dos cavaleiros templários. A primeira vez que vestiu uma cota de malha e empunhou a sua espada, ele sentiu como se aquele sempre fosse o seu lugar.
—Eu sinto que algo está para acontecer - disse Abel. O grão-mestre sorriu e pôs a mão em seu ombro.
—Todos nós sentimos, pois estamos de corações abertos. - respondeu o grão-mestre Matias. - Esse é apenas o final de um ciclo, a vida não acaba, apenas se transforma. Nossa alma é imortal.
—Mas não é justo isso. Tantas pessoas vivendo nesse planeta, tantas famílias, amigos, sonhos.... como pode? - Os demais viraram-se para Abel, intrigados com sua conduta. De fato, na tradição da ordem, o único que deveria tomar a palavra nesse momento, seria o grão-mestre.
—Abel, - respondeu o grão-mestre - você mais do que qualquer outro cavaleiro aqui presente, sabe como as coisas funcionam, pois cresceu ouvindo isso. Várias sociedades iniciáticas já previam esse acontecimento. A população terrestre ultrapassou sete bilhões, o suporte vital atingiu o seu limite. Quando o limite foi ultrapassado, como previsto pelas leis universais, o processo de controle foi iniciado. Como todos sabemos, nós, o planeta e o universo, somos todos um organismo vivo. Até a menor parte, como um holograma, reflete o todo. O humanidade cresceu descontroladamente e irresponsavelmente; agora o que está feito, está feito. Não cabe a nós interferirmos no inevitável.
—Mas deve haver alguma maneira... - retrucou Abel.
—Hey, calma... - disse Pierre para Abel, pondo a mão em seu ombro.
—Tudo bem, Pierre - disse Matias, fazendo sinal com a mão, de que estava tudo bem - Abel, - voltou-se novamente para Abel -  assim como você, que não concorda com a situação, diversas pessoas, através da história, planejaram diminuir a população mundial para que esse momento não chegasse. Alguns propuseram 1 bilhão, outros, 500 milhões. Mas, sempre houveram pessoas que protegeram a humanidade por trás das cortinas e impediram que houvesse um genocídio de tamanhas proporções. Não somos nós que devemos contestar as leis universais, simplesmente devemos compreende-las e  respeitá-las.
—Deve haver um jeito! - vociferou Abel.
—Nem que exterminassem meio mundo - interferiu Pierre - o que está feito, está feito, irmão. Agora devemos aceitar.
—Abel, meu filho - disse o grão-mestre - Temo que o destino esteja selado. À partir de agora, anomalias ocorrerão, fenômenos estranhos, mortes. A próxima mãe está chegando.
—Então eu vou impedi-la! - respondeu Abel, dando as costas e se retirando do local. Pierre tentou segui-lo mas Matias acenou negativamente com a cabeça.


***


Valentino
Roma

—E esse ombro? - perguntou Gomes, apontando para Valentino, enquanto segurava uma garrafa de tequila.
—Ossos do ofício. - respondeu Valentino, dando uma encarada no ombro ferido de canto de olho.
—Você não devia ver isso melhor? - perguntou novamente Gomes - Pode dar tétano, não é?
—Depois eu passo na enfermaria, mas sinto que vai ser problemático.
—Qual o problema? - perguntou Gomes, enquanto enchia dois pequenos copos com tequila. Valentino pensou um pouco em silêncio, virou o pequeno copo com tequila e prosseguiu.
—Gomes, você já viu alguma pessoa andar em paredes?
—Quê? - fez uma expressão de surpresa enquanto enxugava um prato - Você quer dizer quando a mulher fica subindo pelas paredes? - Valentino riu do que ele disse.
—Não é isso. - parou para pensar por alguns segundos - Você sabe que em minha nova área de atuação na polícia, eu tenho visto muita coisa estranha, mas hoje... - Gomes ficou olhando com uma cara de curiosidade.
—Hoje foi bem estranho. - prosseguiu Valentino. Gomes parou pra pensar um pouco olhando para cima.
—Bem, ultimamente tem acontecido muita coisa estranha mesmo. Eu soube que um cara na rua de casa enlouqueceu e devorou um gato.
—Um gato? - Valentino olhou espantado. Gomes afirmou que sim solenemente. - Caramba.
—Pois é, rapaz - disse Gomes, enquanto enchia novamente o copinho que Valentino segurava em sua direção - está tudo tão diferente do meu tempo de rapaz. - Valentino riu e virou o copo de tequila novamente. Seu ombro começava a latejar, mas ele estava protelando em voltar para o departamento, sabia que teria de preencher um relatório sobre o uso de munição.
—Acho melhor eu parar no segundo copo, ainda tenho que voltar dirigindo. - disse Valentino, que em seguida olhou para o chão ao sentir algo encostar em sua perna direita. - Ei, o que você está fazendo aqui, Thomas. Eu não mandei você ficar no carro?! -  esbravejou apontando para a porta de saída. O pug apenas acompanhou com a cabeça a direção em que Valentino apontava e depois voltou a encará-lo.
—Droga, você não me obedece mesmo! - prosseguiu Valentino. Então, algo o interrompeu, chamando a sua atenção. Ele sentiu como se o seu banquinho vibrasse. Thomas começou a rosnar. - Ei, o que foi isso?
—Hum? - Gomes colocava um copo no escorredor. Os dois ficaram em silêncio, que foi cortado apenas pelo som de bolas de bilhar sendo estouradas no fundo do bar. O local lembrava um pub irlandês, com um grande balcão de madeira envernizada no qual Valentino se debruçava. A iluminação suave do ambiente ficava por conta de algumas luminárias que imitavam lampiões. Naquela hora do dia, o bar estava praticamente vazio, estavam apenas Gomes, Valentino, e mais dois clientes jogando bilhar no fundo.
  Valentino levantou-se do banco, encarou-o, abaixou-se e olhou por baixo do estofado, levantou-se novamente e coçou o queixo. Afastou-se um pouco e pisou em algo macio, Thomas soltou um ganido alto, os homens que jogavam bilhar olharam assustados.
—Ei, ei, ei, calma amigão, desculpa! - disse Valentino para o cão que lambia a pata recém-pisada.
—Cacete, radical - disse Gomes, referindo-se a Valentino por seu antigo apelido - quase quebrei dois copos com o susto!
—Foi mal, eu não vi o Thomas, e... - Um forte estrondo interrompeu-o, um som ensurdecedor de vidro estilhaçado tomou conta do ambiente. Instintivamente, todos abaixaram-se protegendo os rostos com os braços. Após o estrondo, o chão ainda tremia um pouco. - ...um terremoto?
—Meu bar! - lamentou Gomes com as duas mãos na cabeça. Haviam diversos copos, pratos e garrafas de bebidas quebrados no chão. O cheiro de álcool impregnou o ambiente, sons de alarmes de carros disparados vinham do lado de fora. Valentino abaixou-se e pegou Thomas colocando-o embaixo do braço.
—Põe as tequilas na minha conta, - disse para Gomes, que parecia estar sem reação alguma em face ao acontecimento. - vou ver o que aconteceu!
  Do lado de fora do bar estava um caos. Pessoas correndo pela rua, trânsito paralisado e crianças chorando. O ombro de Valentino latejava acompanhando as batidas de seu coração.
—Droga.

***


Elliot
Roma (poucos minutos atrás)

A campainha toca.
"Será que minha mãe veio me ver? Mas ela costuma ligar antes". Pensou Elliot, andando lentamente até a porta e olhando em direção ao olho mágico. Aproximando-se com cuidado para não fazer barulho, Elliot espia o corredor. Lá está Francesca, esperando do outro lado da porta.
"Droga, o que ela está fazendo aqui?" pensou Elliot. Ele olhou para trás e viu o caos que estava o apartamento, manchas de sangue e cacos de vidro. "Não posso abrir a porta com o apartamento nesse estado" pensou novamente à respeito da situação. Elliot virou-se de costas apoiando-se na porta, fazendo um leve ruído. Do outro lado, Francesca percebe.
—Elliot? Você está aí? - disse, analisando a porta de madeira escura. Do outro lado, Elliot suspirou ao ouvir a voz dela, não sabia o que fazer ao certo, em vista da situação. Mal tinha se situado após os acontecimentos anteriores e já estava recebendo uma visita inesperada.
—Elliot?! - deu duas batidinhas na porta - Sou eu, a Fran... - Insistiu Francesca, que após ouvir o ruído na porta começava a cogitar a possibilidade de que ele tivesse novamente tentado o suicídio ou talvez estivesse passando mal. Francesa afasta a sua delicada mão, com as unhas cuidadosamente pintadas, combinando com as suas pulseiras e leva em direção ao peito, demonstrando preocupação.
  Elliot percebe que seu ruído o denunciou e cogita seriamente continuar ignorando-a, mas então algo chama a sua atenção: o cabelo prateado em sua mão. Seu coração palpitava, algo fazia ele sentir a necessidade de reencontrar Aisha. Suas pernas tremiam, ele estava fraco, um pensamento invadia sua mente "Sangue, é disso que eu preciso". Sua mão tremula se moveu em direção a maçaneta. Abrir ou não abrir, eis a questão. Esgotamento mental, isolamento, loucura, depressão. Milhares de coisas passavam pela sua cabeça. Amor e medo, felicidade e solidão. Um filme desenrolava, de repente tudo apagou. Então, ele volta a si. A porta entreaberta, em suas mãos ainda tremulas, uma faca suja de sangue. Ele olha para baixo, lá está Francesca. Sua blusinha branca da channel está tingida de vermelho.
—O que eu fiz? - murmurou Elliot. Já estava feito, mas e agora? E Aisha? O silêncio perturbador só era quebrado por um zunido estridente em sua mente. Algo estava pra acontecer.


Nesse instante, na praça de São Pedro, cidade do Vaticano.

—Mãe, o que é aquilo no céu? - perguntou uma garotinha de cabelos castanho-claros. Sua mãe pôs a mão acima dos olhos como se fosse uma aba de boné e olhou para o céu, procurando. Havia uma formação incomum no céu azul-desbotado daquela tarde, como se o céu estivesse sendo rasgado. Algumas pessoas que passavam pelo local também começaram a notar a anomalia. Umas paravam para observar e outras continuavam seu caminho sem se importar. Um estrondo abafado como de um trovão pode ser ouvido, um leve tremor de terra fez com que a mulher e a garotinha olhassem para o chão. Os pássaros levantaram voo, as pessoas se olhavam espantadas. Foi aí, como num piscar de olhos, que algo despencou dos céus, o chão estremeceu violentamente e se abriu. Pessoas correram desesperadas, fumaça, estilhaços voaram das janelas, alarmes disparam e o homem cego balbuciou algumas palavras.

  O som da quinta trombeta é o "primeiro ai" de três. E o quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caiu na terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo, e abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como a fumaça de uma grande fornalha, e com a fumaça do poço escureceu-se o sol e o ar, e da fumaça vieram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o poder que têm os escorpiões da terra, e foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm nas suas testas o sinal de Deus. E foi-lhes permitido, não que os matassem, mas que por cinco meses os atormentassem; e o seu tormento era semelhante ao tormento do escorpião, quando fere o homem. E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles. E o parecer dos gafanhotos era semelhante ao de cavalos aparelhados para a guerra; e sobre as suas cabeças havia umas como coroas semelhantes ao ouro; e os seus rostos eram como rostos de homens. E tinham cabelos como cabelos de mulheres, e os seus dentes eram como de leões. E tinham couraças como couraças de ferro; e o ruído das suas asas era como o ruído de carros, quando muitos cavalos correm ao combate. E tinham caudas semelhantes às dos escorpiões, e aguilhões nas suas caudas; e o seu poder era para danificar os homens por cinco meses.


CONTINUA...

por: Fernando Bonvento





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