terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Budismo

  Vamos falar hoje sobre uma religião muito antiga, que sua história começa a mais de 3.000 anos a.C. Hoje todos ouvimos falar sobre o budismo, mas o que ele é, qual sua origem, sua filosofia? Independente de você ser ateu ou seguir uma religião, é sempre interessante aprender sobre as mais diversas culturas.



  Não seria a primeira vez que as pessoas perguntam–se sobre a imagem daquele Buda gorducho que aparece em nossa cabeça quando pensamos em Budismo, mas a pergunta que devemos fazer neste primeiro momento é: Esta imagem é verdadeira? A resposta para um Budista experiente seria com certeza NÃO.
buda gordo
  A imagem acima é uma falsa imagem de Buda que surgiu na China há algumas centenas de anos por causa de algumas contingências filosóficas. O que podemos dizer neste primeiro momento é que a verdadeira imagem de Buddha seria algo como a que segue:
buda, gautama
 O príncipe Shakyamuni, que posteriormente seria conhecido como Buda, era esguio, campeão de luta e de esgrima. Curioso, não é mesmo?

  A verdade é que o Budismo teve um início muito conturbado na fronteira da Índia com o Nepal, mas naquele tempo nenhum dos dois países eram assim conhecidos: Na realidade não havia países, mas sim clãs com muita rivalidade entre si... E é neste ambiente problemático que a história do príncipe Siddharta Gautama começa (sim, este era o nome do Buda antes da iluminação). Vamos agora a um breve histórico de sua família.

  A história diz que naquele tempo, o líder do clã Shakya, um dos mais poderosos na época, passava por um problema com herdeiros, afinal de contas, não conseguia ter filhos. No entanto, após algum tempo de casado, ele descobriu que sua esposa estava grávida. Ela contou posteriormente que em um sonho, ela havia visto um elefante branco por uma flor de lótus em seu ventre, e o rei tomou aquilo como um bom presságio. Seja como for, ela deveria viajar à casa de seus país (como era o costume naquela terra, e naquele tempo) para dar a luz ao filho, mas infelizmente, depois de um trabalho de parto no meio da viagem, ela veio a falecer. E o menino que nascera deveria ser criado pelo pai e pela tia, para que se tornasse um grande rei. Existem muitas histórias místicas sobre o percurso em que o Buda nasceu, mas a mais comum entre os budistas é a de que um sábio Brâmane descera das montanhas e dissera ao rei que a criança que nasceria seria ou um grande rei ou um líder religioso que mudaria o mundo.
  Alguns pontos de convergência existem entre versões, mas o que é certo é que o rei não gostava nada da ideia de seu primogênito seguir a vida religiosa, afinal se fosse este o caso, ele não teria nenhum herdeiro legítimo e sua família perderia a liderança do clã. Então, aconselhado pelo sábio das montanhas, o rei mandou que construíssem alguns palácios onde o menino cresceria tão apegado ao mundo que não teria a menor vontade de abandonar os prazeres desta vida para seguir o sacerdócio.
  O jovem Siddharta cresceu com todo o luxo de que uma criança naquele período poderia querer: Mulheres, vinhos, comida, riqueza... E já nos seus primeiros anos demonstrou uma tendência para o intelecto. Sábio entre os outros amigos na educação básica e um exímio lutador. Casou-se aos 16 anos com uma jovem da mesma idade de um clã vizinho e continuou vivendo na riqueza até o dia em que seu pai, percebendo que a idade avançava, decidiu que era o momento certo para apresentar ao filho os domínios de seu reino. Assim, mandou que todas as pessoas pobres, doentes e os funerais fossem banidos. Um carroceiro levou o jovem Siddharta aos arredores do reino e tudo teria corrido perfeitamente bem, se duas pessoas idosas não passassem ali por perto.
  Foi problemático, afinal de contas o jovem príncipe nunca havia se deparado com pessoas de idade avançada; ele percebeu naquele momento que estas pessoas tinham o cabelo branco e que caminhavam com dificuldade por causa do corpo curvado. Sua reação foi instantânea:


—Vichnu - perguntou ele ao carroceiro e amigo. - Quem são aquelas pessoas e por que caminham daquela maneira?

  Indagado pelo príncipe, o carroceiro não teve escolha a não ser dizer que se tratava da velhice e que, mais cedo ou mais tarde, todos passariam por aquela fase e, não satisfeito só com aquela informação, o príncipe foi para mais longe e percebeu que havia algumas pessoas chorando e com várias marcas de ferimentos no corpo. A mesma coisa aconteceu: o carroceiro foi vítima de mais perguntas e o príncipe soube que todas as pessoas tinham a doença dentro do corpo e que cedo ou tarde a adquiriam. Mas a visão mais traumática, que mudaria a vida do príncipe estava ainda por vir.
  Um funeral acontecia perto de lá. Comumente, construía-se uma pira¹ para queimar os corpos. Aterrorizado pela visão, o príncipe interrogou o seu amigo novamente e recebeu a resposta mais assustadora de sua vida.

—Isto, meu príncipe, é a morte. Todos estamos sujeitos à doença, à velhice e à morte. Cedo ou tarde todos passamos por isto.

  E como se não bastasse, como dizia a fé dos hindus e dos brames, a pessoa deveria renascer e passar por todo o ciclo mais uma vez. No ocidente as pessoas chamam a isto de reencarnação, no entanto, no Budismo há um nome mais apropriado: Renascimento².
  O jovem príncipe viu um velho banhando-se no lago, mas que apesar da idade avançada, tinha um brilho diferente nos olhos e mais vigor. Descobriu naquele mesmo dia que se tratava de um brame, homem que abandonava o apego a todos os bens materiais para atingir a iluminação... E sabendo destas informações, voltou para casa, onde teve uma discussão com seu pai quando anunciou que desejava seguir a vida religiosa.
  O pai foi peremptório em sua decisão de proibi-lo de abandonar o palácio, afinal ele seria pai de uma criança em breve. O filho se chamaria Rohula (Obstáculo, em sânscrito) para lembrar ao jovem príncipe qual era seu lugar. E realmente, o príncipe permaneceria no castelo pelos próximos dois anos, atormentado por seus próprios fantasmas. Já vislumbrara a cena de um pássaro apanhando um verme no terreno arado quando ele tinha 9 nove anos, mas nunca imaginava que o mesmo poderia acontecer com seres humanos: A morte era uma realidade para todos os seres vivos.
  No entanto, quando o jovem príncipe tinha seus 21 anos, foi demais para ele pensar que todos naquela casa morreriam, o que incluía seu próprio filho, então, durante uma noite escura, decidiu que deveria seguir seu coração e encontrar uma reposta para o enigma da vida e da morte de uma vez por todas...

...A história diz que durante a noite os guardas haviam adormecido e que ninguém a não ser o carroceiro, amigo de infância do jovem Siddharta, percebeu que ele fugia. Mas por que eram amigos, o carroceiro não impediu que ele fosse embora. Shakyamuni foi para a floresta, e lá durante os próximos sete anos praticaria o Ascetismo, o Bramanismo e outras práticas que o levariam à iluminação. As histórias contadas deste período são muitas, mas por uma razão de espaço, diremos aqui que ele era sábio em demasia e que conseguiu discípulos em pouco tempo de prática. As histórias dizem ainda que ele comia pouco, alguns poucos grãos, água de orvalho, e seu corpo perecia em sua vã tentativa de encontrar a iluminação desapegando-se do mundo.
   O jovem príncipe só encontraria a morte nesta vida caso continuasse daquela maneira, pois quase morreu quando estava sentado debaixo de uma figueira e os abusos da resistência corporal cobraram seu preço: Se não fosse por uma filha de pastores que lhe deu um pouco de farinha de milho e leite, ele teria morrido. Ergueu-se frustrado naquele dia, e seus discípulos o abandonaram, sob a alegação de que havia quebrado seus votos.
   Sentando-se debaixo da figueira, com vestes para protegê-lo do frio e a barba aparada desta vez, ele passou a concentrar-se com os olhos semicerrados e sentado na posição de lótus³, meditando para que encontrasse a resposta que tanto procurara naqueles anos. Prometera a si mesmo que não sairia daquele local sem a resposta: Era conseguir ou morrer tentando...

...E depois de sete dias meditando, sem comida ou água, que uma coisa impressionante aconteceu! O demônio, no mundo espiritual percebeu que o jovem Siddharta estava muito perto de se tornar um Buda, um líder que mudaria o rumo do mundo, então, com suas artimanhas, o rei demônio Mara tentou iludi-lo com vários truques, mas não pôde fazê-lo e foi superado... Observem a história neste vídeo:
Nada como um desenho animado para ilustrar a iluminação búdica!


Alguns Conceitos

Ao contrário da maioria das religiões do mundo, o Budismo prega que devemos criar o desapego mundano, o que quer dizer que não podemos criar desejos excessivos aos bens materiais e a este mundo, visto que estes são a origem do sofrimento.

Diferentemente das outras culturas religiosas, também, o Budismo é a primeira religião que não possui nenhum Deus, mas sim uma prática voltada para os domínios da mente sobre o corpo. E sobre a compreensão da verdade do Universo pela iluminação.

Neste ponto muitos de vocês devem estar se perguntando: O que exatamente é a iluminação? Os Budistas não veneram Buda?

Os Budistas, ao contrário do que se pensa de maneira geral, não idolatram imagens como a do Buda ou de nenhum Deus equivalente aos cristãos, mas buscam a iluminação interior através de práticas de acordo com os ensinamentos do primeiro homem iluminado conhecido: Siddharta Gautama, a grosso modo, o Buda de Shakyamuni (Shakyamuni = Sábio do clã Shakya).

Enquanto em algumas religiões busca-se algo, no Budismo perde-se algo: Perde-se o apego ao material, ao mundo físico (Jambudvipa) e busca-se a iluminação e eis aqui outro termo problemático: O que é a iluminação?

É quando se atinge a felicidade plena através da prática Budista. Um Buda, ou seja, alguém que atingiu a iluminação, não possui dúvidas na mente, mas ao contrário, conhece todos os fenômenos no universo como um todo, logo possui um conhecimento ilimitado da mente do Buda.

Outro conceito básico que é necessário saber quando se fala de Budismo é o do Karma. O Karma vem da palavra sânscrita “Kharmas” que em sua tradução literal significa ação. De acordo com o budismo, toda ação cometida por um ser humano, pode causar karma positivo ou negativo, dependendo de como isto pode vir a afetar outras pessoas, desta forma o “Karma” ou em outros termos, as consequências de suas próprias ações, voltam para você depois de algum tempo. O Karma pode ser acumulado e se manifestar em outras existências ou pode manifestar-se nesta vida de maneira mais direta... Existem várias teorias que explicam a respeito do karma, mas por razões de espaço, este artigo limitar-se-á a exposição deste conceito básico: Toda ação tem uma reação de igual força, a este princípio, o Budismo tradicional chama de Lei de Causa e Efeito!

Em um panorama geral, o Budismo antigo que visava à meditação, a recitação de mantras, os mudras[4], etc... Na verdade existem vários tipos de Budismo no mundo, algo que deve ser observado com cautela, visto que esta religião não encontrou obstáculos em seu desenvolvimento na Ásia... No sul, o Budismo permaneceu relativamente imutável e várias comunidades menores conservam práticas, ainda nos dias de hoje, próximas do que era naquele tempo, ao passo que em países como a China e o resto do Norte da Ásia, o Budismo encontrou-se com outras culturas religiosas e modificou-se por causa do sincretismo, dando origem aos Budismos mais conhecidos nos dias de hoje: A escola Budista Zen, A escola do Budismo Tibetano, Escola Shingon, Nembutsu, etc, etc, etc... Pode-se dizer que existem dezenas, se não mais de uma centena, de tipos de Budismo que foram surgindo ao longo da história. No Brasil, um dos tipos mais populares de Budismo é o da escola Nichiren, que segue os ensinamentos do Buda original Nichiren Daishonin, um Buda que surgiu no Japão Feudal em 1.222. Entre os adeptos do Buda Nichiren Daishonin (Buda este, que foi profetizado pelo primeiro Buda) encontra-se o autor do presente artigo! Membro da Nichiren Shoshu já há algum tempo.


  Seja como for, o Budismo continua se espalhando pelo mundo e ganhando cada vez mais seguidores, especialmente com o aumento das tecnologias e da comunicação em massa, e a tendência é continuar, ou ao menos é o que indicam as pesquisas...

Artigo por Luigi C. Domani


1 Fogueira construída com grandes partes de madeira para queimar os corpos dos falecidos. Tal fogueira era muito comum e continua sendo hoje em alguns países.

2 A diferença é sutil, mas não será tratada neste breve artigo por questões de espaço. Para mais a este respeito, ver “Osho”, 2008...

3 Posição com as pernas cruzadas e com o corpo relaxado. Veja sobre esta posição na segunda foto exposta neste artigo.


4 Posições dos dedos das mãos usados em algumas orações Budistas da escola antiga. Alguns estilos de Budismo ainda fazem uso destes nos dias de hoje.





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