sábado, 21 de setembro de 2013

Creepypasta: O homem embaixo da cama

  Crianças costumam ter uma imaginação enorme e um medo maior ainda. O que separa a imaginação da realidade?



  Já fazem quase 2 meses que minha pequena Cecília desapareceu. Ainda me lembro daquele maldito dia, era um domingo. Quando eu e Júlia acordamos, não a encontramos em casa, foi um choque. As portas da casa estavam todas trancadas, então procuramos em todos os cômodos, e quando esgotaram-se as possibilidades de encontra-la lá dentro, começamos a procurar pela vizinhança. Como ninguém a viu também,  ligamos para as coleguinhas de escola, na esperança de que ela estivesse na casa de alguma, mas seu paradeiro continuava desconhecido. Meu corpo tremia de nervoso, meu Deus, ela tem apenas 7 anos, e se ela se machucou, ou coisa pior; e se alguém a sequestrou?
  Pensando no pior, passamos pelo hospital, pronto-socorro, mas não havia nenhum sinal de Cecília. Faziam seis meses que eu havia conseguido parar com o vício do cigarro, mas devido às circunstâncias, eu acabei acendendo um filtro vermelho. Júlia me olhou torto, mas estava tão nervosa e preocupada com o sumiço de nossa filha, que nem discutiu comigo. Fomos à polícia, mas lá nos disseram que devíamos esperar 24 horas para comunicar o desaparecimento. Meu Deus, é só uma criança, como eles podem ser tão burocráticos em uma situação como essa?
  Então essas 24 horas se passaram, e mais outras 24 horas, 24 dias e mais. Publicamos fotos no jornal comunicando o desaparecimento, passei horas percorrendo as ruas de carro, na esperança de encontrá-la em algum beco. Júlia não saía de casa, ficava ao lado do telefone, com medo de que enquanto não estivesse lá, alguém ligasse indicando o paradeiro de Cecília. Às vezes ela chegava a dormir no sofá, ao lado do telefone. Sexo já não existia mais em nossa relação, mas não a culpo, pois não havia mais clima depois do sumiço de nossa filhinha.
  Como a polícia parecia não estar movendo uma palha para encontrar Cecília, resolvi dar minha última cartada: contratar um investigador particular. Dinheiro não era problema, deste modo, fui atrás de um dos melhores, o qual um amigo indicou, pois já havia contratado seus serviços para investigar a ex-mulher, quando estava desconfiado dela. Cláudio, um homem sisudo, sem meias palavras. Apesar de ter aquele jeito seco e direto, eu simpatizei com sua atitude, principalmente porque o assunto referente à minha filha exigia muita seriedade.
  Foi aí que ele sugeriu algo que ninguém tinha pensado, que olhássemos nas coisas de Cecília para encontrar alguma pista. Quando começamos a examinar seu guarda roupa e encontramos seu material escolar, Júlia saiu de lá chorando, ao ver um desenho de Cecília que representava nós três de mãos dadas, com seus traços infantis. Confesso que senti um nó na garganta. Em todo aquele tempo que havia se passado, mil coisas passaram pela minha cabeça. Eu só queria minha filha de volta. Então, folheando os desenhos feitos em papel sulfite, encontrei algo estranho. Começaram a aparecer alguns rabiscos de lápis preto, com o que parecia ser uma figura de alguém, ou alguma coisa; e o desenho se repetia várias vezes. Havia o desenho de um quarto com uma cama, uma janela, e na janela tinha a aquela figura desenhada. Em outro desenho, a mesma figura estava embaixo da cama. No seguinte, havia a nossa casa desenhada, e "aquilo" estava em cima do telhado. Confesso que ver aquilo me deixou angustiado, Cláudio olhava para os desenhos e olhava para mim, como se esperasse que eu desse alguma explicação sobre os desenhos. Nossa hora me veio um estalo na mente, fiquei paralisado.
  Duas semanas antes do sumiço de Cecília, ela começou a reclamar que tinha um homem se escondendo embaixo de sua cama. Por via das dúvidas, eu fui olhar, mas havia apenas uma blusa de moletom jogada lá embaixo. Pensei comigo, que devia ter sido apenas imaginação infantil somada ao medo. Passaram-se os dias e Cecília voltava sempre com a mesma conversa do homem estranho no quarto dela, mas nunca encontrávamos nada de anormal lá. Júlia me culpou por isso, disse que foi por eu ter deixado Cecília ver um filme de terror comigo, ela disse que o filme tinha impressionado a menina.
  Várias vezes ela apareceu na porta de nosso quarto com o travesseiro na mão, querendo dormir junto. Mas como eu e Júlia estávamos interessados em fazer "outro tipo de coisa", negávamos, apesar de seus protestos. Poucos dias antes de seu desaparecimento, apesar de notarmos seu visível desconforto em dormir sozinha, ela parou de nos incomodar pedindo para dormir junto, e até mesmo parou de falar do homem com os braços grandes que ficava em sua janela, ou então embaixo da cama. Deus, ela disse até que as vezes acordava com ele sentado nos pés de sua cama, encarando-a, como pude achar que isso foi imaginação de uma criança? O maldito homem de preto, sem rosto, sem expressão. O homem que puxava sua coberta à noite, o homem que caminhava no telhado... Tantas vezes ela tentou me avisar e eu não dei ouvidos a ela. Seria alguém ou algum outro tipo de coisa, que levou minha filhinha embora?
  Apenas engulo a seco minha mágoa de não ter dado ouvidos à Cecília. Uma gota de lágrima cai em cima do desenho, em cima daquele rabisco disforme, esguio e horrendo. Cláudio ainda espera que eu diga algo. Eu só quero minha filhinha de volta.

por: Fernando Bonvento





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