domingo, 22 de setembro de 2013

Nameless Chronicles capt. II-1

conto, história, aventura, sobrenatural, romante, conspiração
  Antes leia: Prólogo, Capítulo 01. Romance, thriller, mistério, aventura, sobrenatural.



Valentino
Roma
  Valentino foi um membro do NOCS (Nucleo Operativo Centrale di Sicurezza), as forças especiais italianas; mas devido à um período difícil de sua vida em que enfrentava um divórcio, ele acabou sendo afastado. Devido à tais problemas, ele acabou sendo afastado do nocs. Ele sentia-se em uma dimensão paralela, "O que aconteceu de errado? Como alguém que conhecia à vários anos, poderia mudar tanto?". Flávia e Valentino se conheciam desde a época do ginásio, quando começaram a namorar. Quatro meses após se formarem no segundo grau, ficaram noivos, mais dois anos e se casaram. Tudo parecia um sonho, ele entrou para as forças especiais, seu pai ficou muito orgulhoso, mas à medida que sua felicidade e realização aumentava, a de Flávia decaia. O que antes parecia uni-los, os interesses em comum, o jeito brincalhão e distraído de Valentino, tornou-se motivo de discórdia. Flávia que antes se importava com os momentos e coisas pequenas, agora sonhava mais alto, queria uma vida de luxo, e tudo mais que a vida poderia oferecer; isso começou  após a morte de seu pai. Quando ela tocou no assunto da separação, Valentino viu o castelo de areia que ele havia construído com tanto carinho, desabar. Então veio a separação, ele ficou muito mal, faltava ao serviço, ficava horas a fio no bar. Quando ele soube que ela estava agora com um duque, resolveu dar um basta na tristeza, ela já não era mais a pessoa que conheceu, era apenas mais uma mulher gananciosa como tantas outras.
   Após algum tempo em que começou a recuperar a sua vida, ele fez de tudo para ingressar novamente nas forças especiais, mas foi em vão, pois já havia caído em descrédito. A sua salvação foi Vittorio Mazza, seu padrinho, e também Questore(superintendente) da PdS em Roma. De 4 anos para cá, estavam aparecendo muitos casos bizarros por toda Roma, e não só em Roma como toda a Itália e Europa. A polícia já estava cansado de atender a essas reclamações, então foi criado um subdepartamento dentro das operações especializadas: o DDCS (Dipartimento di casi straordinari), o qual esses casos no mínimo bizarros, eram investigados. Na realidade o ddcs era visto com um certo tom de piada pelos membros das outras operações. A única alternativa de Valentino foi aceitar o cargo no ddcs, era a única maneira de pagar as suas contas e tentar provar o seu valor como ex-membro das forças especiais.
  Com várias dívidas acumuladas, ele acabou indo morar em um trailer, com as únicas coisas que sobraram do casamento, os seus companheiros, Isaac e Thomas; um buldogue inglês e um pug, respectivamente.

  Valentino estava recostado em sua cadeira, em um cubículo dentro da PdS. O lugar estava abafado, só não estava pior, devido a um pequeno ventilador de pás azuis, sem a grande de proteção que estava acima do arquivo ao lado da mesa. Isaac estava esparramado no chão de pisos xadrez, com a língua pra fora, respirando ofegantemente. Thomas apenas olhava as vezes para Valentino com olhar de piedade, seu pelo da cor caramelo desbotado, contrastava com o piso preto o qual estava em cima. Valentino empinou a cadeira e apoiou os pés no canto da mesa, mas seu breve momento de desligamento da realidade foi interrompido pelo telefone que tocou. Um breve desequilíbrio, ele aperta o botão para ouvir sem tirar o fone do gancho.
--Pode falar. - disse ele.
--Tem uma reclamação de desentendimento na via di monteverde, próxima à paróquia de San Damaso. - disse a secretária, repassando os dados da chamada - É para você comparecer ao local.
--Ótimo - respondeu Valentino, com um tom visivelmente descontente - e onde entra o meu departamento nisso?
--Me foi passado para encaminha-lo ao caso.
--Que seja. - Valentino soltou o botão, evitando expressar mais o seu descontentamento, ele precisava do emprego. No entanto, parecia haver alguém dentro da corporação tentado sabotá-lo, delegando para ele a tarefa atender todas as chamadas indesejáveis que a polícia recebia, como brigas entre vizinhos e coisas do tipo.
  Quando levantou-se da cadeira, Isaac prontamente levantou-se do chão também, Thomas continuava a observa-lo atentamente.
--Bora, galera - disse Valentino para os cães, que puseram-se a segui-lo. Ele deixou a saleta e passou pelo corredor, uma mulher que passava com papéis, distraída, tropeçou em um dos cães.
--Aqui não é um canil - disse Francis, um subtenente da guarda municipal. Valentino apenas olhou torto por um segundo para ele e continuou sua caminhada. "E nem um chiqueiro para você estar aqui" pensou Valentino. Saindo da sede da PdS, ele seguiu até o estacionamento, e abriu a porta do seu opala preto. Ao contrário dos demais funcionários das operações especializadas, que utilizavam viaturas próprias, o ddcs que contava apenas com 3 membros, incluindo Valentino, era meio que marginalizado dentro da corporação.
  Ao abrir a porta, antes mesmo que ele pudesse entrar, pularam para dentro do carro, seus fiéis companheiros caninos. Valentino deu a partida e saiu deixando para trás, uma nuvem de fumaça vinda do potente motor v8.
  As ruas pareciam estar mais agitadas que o normal. Thomas se espremia na beirada do banco próximo ao freio de mão, enquanto Isaac ia do lado da janela com os beiços balançando ao vento.  Valentino abriu o porta-luvas e puxou uma antiga fita k7, com uma fita colada escrito Ramones, e pôs no velho toca fitas do opala.
--Sabe Thomas - disse Valentino - eu sei como você se sente, com esse pessoal folgado tentando me passar a perna. Mas sabe de uma coisa? - Thomas apenas olhava para ele com os olhos esbugalhados, sem entender nada, Isaac continuava com a cara na janela. - Eu vou retomar meu posto e deixar aquele trailer fedorento!
  Após algum tempo, Valentino finalmente chegou ao local. Ele olhou no relógio, eram 16:47. No rádio do carro ainda tocava Blitzkrieg Bop quando ele desligou o motor.
--Vocês dois fiquem aqui quietos até que eu resolva isso.
  Valentino saiu do carro. Em frente ao prédio de cinco andares ocre, havia uma meia dúzia de pessoas que pareciam discutirem, aflitas. Quando ele saiu do opala, elas olharam desconfiadas para ele, um grupo de comadres visivelmente perturbadas. Quando uma delas percebeu a corrente com o distintivo no pescoço dele,  foi correndo ao seu encontro.
--Você é da polícia? - perguntou ela.
--É o que parece. - disse Valentino. Ele estava cansado de ouvir esse tipo de pergunta, por seu departamento ser algo "extraoficial", não possuía uniforme e nem podia fazer uso de viaturas.--Deus seja louvado! - disse a mulher, olhando para cima e balançando as mãos - Nós não sabemos mais o que fazer, ele sempre foi um bom moço, nunca incomodou ninguém, agora ele parece outro - a mulher disparou a falar - Deus me perdoe, mas isso é obra de satanás, olhe o que ele com Clotilde! - disse, apontando para outra mulher que exibia um ferimento de arranhão, que ia desde o meio do braço até o pé do pescoço. Devido às circunstâncias, Valentino já sacou sua Glock 9mm.
--Têm mais civis no prédio? - perguntou à mulher.
--Acho que não, só estávamos nós, meu marido ainda está trabalhando. - disse gesticulando freneticamente.
--Ótimo. Qual o número do apartamento?
--Só você subir aquela escadinha ali, entra no terceiro andar, o senhor já vai ouvir os gritos. - As outras mulheres olhavam espantadas, essa reação piorou quando viram ele sacar a pistola. Uma delas fez o sinal da cruz  duas vezes.
  Então, ele subiu as escadas empunhando a pistola, apontada para baixo. Ao chegar no terceiro andar, encontrou a porta da entrada entreaberta. Empurrou a porta com o joelho, o corredor estava vazio. Ao dar o primeiro passo para dentro, ouviu uma gargalhada insana vindo da porta de um dos apartamentos. Aquilo fez seu braço arrepiar, mas nada fora do comum para Valentino. Nesse pouco mais de um ano no ddcs, ele já tinha visto muita coisa estranha. Pessoas enlouquecidas, casos aparentemente inexplicáveis, chamadas com relatos absurdos, gnomos ladrões assaltando senhoras, discos voadores sequestradores de gado, gangues de necrófilos violando túmulos... essa era sua rotina.
  Alguma coisa encostou atrás de sua panturrilha, Valentino deu um pulo, se não fosse a trava, teria disparado um tiro acidentalmente. Olhou para trás, era Thomas.
--Droga! como você veio parar aqui? - Gritou Valentino, furioso - Eu mandei você ficar no carro com o Isaac! Falando nisso, cadê ele, ficou lá? - Como se um cachorro fosse lhe responder, ele apenas ficou olhando para ele com aquela cara de piedade.
--Fica aqui quietinho! - reiterou Valentino.
  Enquanto isso a voz masculina voltou a gargalhar, e então ouviu-se barulhos de objetos caindo. Isso foi o suficiente para Valentino identificar o local correto. 34 B, a porta estava destrancada também, pois dava pra perceber a iluminação saindo pelo pequeno vão da abertura.
--Senhor, é a polícia - gritou Valentino, apontando a pistola para a porta - saia com as mãos onde eu possa ver.
  Silêncio. Quase um minuto se passou e ele não obteve resposta alguma.
--Eu disse que é a polícia, saia já daí! - gritou mais alto do que da primeira vez. Dessa vez ouviu um barulho, mas continuou sem resposta. Então, ele empurrou a porta com o pé, ela seguiu metade do caminho e bateu em um sofá que estava obstruindo o resto do percurso. Valentino analisou o ambiente pela fresta, parecia uma sala bagunçada, com coisas jogadas no chão. Novamente, só que dessa vez usando o peso do corpo, ele empurrou a porta, e o sofá foi empurrado junto, cedendo ao seu peso. A sala estava vazia, logo ele concluiu que ele devia estar em se escondendo outro cômodo. Então ouviu outra gargalhada sinistra, que o fez ter certeza disso.
--Porra cara, facilita meu trabalho, sai logo daí! - gritou Valentino. Então olhou para trás e viu que Thomas estava espiando do corredor.
--E você, já falei pra ficar lá na entrada! - esbravejou, apontando o dedo para ele. Dessa vez o cão entendeu e saiu correndo de lá.
  Voltou sua atenção novamente para o corredor do outro lado da sala bagunçada. A televisão de umas 32 polegadas, de plasma, estava tombada de lado no chão, a imagem piscava um pouco, mas ainda estava ligada, e dava-se para ouvir em volume baixo, a âncora do telejornal de notícias falando: "Curiosos do mundo todo observam as luzes em Jerusalém. São pelo menos sete, paradas acima da cidade. Seitas religiosas se reuniram em vigília, temendo o que dizem ser o fim dos tempos. Por outro lado, grupos de ufólogos se reuniram para filmar e investigar o que afirmam ser a maior atividade ufológica da história. O governo ainda não se pronunciou...". Valentino prosseguiu, desviando dos enfeites jogados no chão. Novamente uma risada histérica, vinha de uma porta no corredor. Era um quarto, a porta destrancada denunciava isso.
--Porra, cadê você cara? Não banque o maluco comigo! - disse Valentino. Ele ficou de frente pro quarto, não via ninguém, pensou que ele podia estar se escondendo na parede ao lado. Mas de repente, atrás da cama desarrumada, com os lençóis amarelados, começou a surgir alguém. Ele foi se levantando por detrás da cama vagarosamente e então parou, no nível dos olhos e ficou encarando Valentino, que apontava a arma em sua direção. Valentino teve uma súbita impressão de que alguém viria por trás e o acertaria na nuca, mas não lembrou-se de ter ouvido as mulheres comentarem sobre outra pessoa, o cara provavelmente estava sozinho ali.
--Levante-se e saia já dai com as mãos atrás da cabeça! - disse Valentino. O homem atrás da cama não lembrava um ser humano, parecia mais um animal selvagem acuado. Cabelos desgrenhados, pele pálida como a de um cadáver e olheiras profundas. Provavelmente um desequilibrado mental. Quando Valentino disse isso, o homem levantou-se mais um pouco e exibiu um largo sorriso.
--Eu já falei pra sair dai! Anda logo, porra! - gritou Valentino. Ele estava nervoso, não sabia o que esperar daquele homem, se ele viesse para cima, apesar de estar com uma pistola em mãos, não seria nada bom ferir um civil desarmado, isso afundaria ainda mais na lama sua reputação. Então algo muito estranho aconteceu, a pupila do homem começou a se dilatar, transfigurando-se em grandes bolas negras. "Que porcaria é essa? Efeito de drogas?" pensou Valentino. O homem não dizia uma palavra, apenas fitava-o com aquele grande sorriso largo e aqueles olhos macabros, e então começou a se levantar e seguir lentamente em sua direção, passando por cima da cama.
"Droga, o que fazer? Não posso atirar nele. Terei de imobilizá-lo". Pensou Valentino.
  Ele já ia guardando a pistola no coldre, para por em prática o seu plano, quando o homem pulou em sua direção com uma agilidade desproporcionalmente grande. Antes que ele pudesse reagir o homem estava mordendo seu ombro esquerdo, sua única reação foi dar uma coronhada na cabeça do kra, e outra e mais outra. As pancadas abriram um rasgo no supercílio do homem. Então em uma manobra, Valentino conseguiu se desvencilhar dele e joga-lo no chão, ele não conseguia acreditar como um homem tão franzino conseguia encara-lo na briga. Valentino, um homem de 27 anos, com porte físico atlético, cabelos loiro arrepiado, barba por fazer. Ele sempre fez sucesso com as mulheres, apesar de ter apenas olhos para Flávia. No treinamento de artes marciais do nocs, ele era o melhor, sempre na frente, sempre se arriscando, isso lhe rendeu o apelido de "radical", era assim que o chamavam lá. Agora no entanto, o Valentino "radical" estava tendo problemas para encarar aquele sujeito estranho.
--Qual é cara - disse Valentino. Uma marca de sangue surgia em sua camisa, no local onde fora mordido - você quer fazer mesmo do jeito mais difícil?
  O estranho sujeito levantou a cabeça e encarou-o com aqueles olhos completamente negros. E apenas disse:
--A cria do abismo- sua boca pálida estava machada com o vermelho do sangue de Valentino.- ela não pertence a esse lugar, mas quando sua criação chegar...
---Quê? - Indagou Valentino. O homem apenas sorriu, seu rosto parecia ainda mais desfigurado, as veias saltavam pela testa e pescoço. Então ele começou a recuar, andando de quatro, como se fosse uma fera.
--Parado aí! - Mas ele não deu ouvidos, continuou lentamente e então fez algo que até Valentino, que havia visto várias coisas estranhas, se assustou. Ele começou a subir na parede, como se fosse uma aranha ou algo do tipo. Valentino deu dois passos para trás.
--Droga, quem é você? - gritou Valentino, dessa vez ele empunhou novamente a pistola na direção da sinistra figura. - O homem aranha?
  Mas ele apenas olhou para Valentino com aqueles profundos olhos negros e começou a rir freneticamente, gorgolejando. "Foda-se minha reputação, esse cara parece... possuído" pensou Valentino, disparando um tiro na perna dele. O homem transfigurado, caiu no chão, soltando um guincho agudo.
--Glock 19. - disse Valentino, olhando para o homem no chão, que encarava Valentino com os dentes cerrados. - Melhor do que água benta.
  Então, mesmo ferido, ele pulou novamente na direção de Valentino, só que dessa vez foi recebido por um soco de esquerda entre os olhos. Então, caiu se esperneando no chão, permitindo que Valentino o imobilizasse, pressionando o joelho em suas costas e algemando-o. Após isso, com muito custo, ele levou-o para baixo, descendo a escadaria de metal, e prendeu a algema do homem na grade do corrimão, próximo à entrada do prédio.
  Lá fora, as mulheres pareciam abismadas ao verem a figura bizarra que Valentino trouxera para fora. Do outro lado da rua, alguns curiosos ficavam observando, os carros também passavam mais devagar ao notar a cena.
--Você tem o contato da família dele, dona? - perguntou Valentino à mulher a qual tinha ido ao seu encontro inicialmente.
--Ninguém sabe, ele morava aqui sozinho. Fora daqui eu só o via na missa aos domingos. - então olhou para o ombro de Valentino e apontou - meu Deus, você está bem?
--Não foi nada - respondeu ele - Nesse caso vou bater um rádio, para que mandem uma ambulância.
--Deus do céu - dizia outra mulher - o que houve com ele?
  Valentino caminhou calmamente para o opala, o estranho homem continuava olhando para Valentino e rosnando como um animal; ele podia ouvir o barulho das correntes da algema friccionando no metal do corrimão. Chegando no carro, encontrou Thomas de volta, sentado em seu lugar, e Isaac ainda estava sossegado no banco do passageiro. Ele avisou pelo rádio para que enviassem uma ambulância ao local com sedativos, pois havia um doente mental perigoso. Sua cabeça começara a doer, uma maldita enxaqueca, não pela situação bizarra que passara, mas por pensar em como iria explicar a bala que gastou. "Na hora do desespero atirei naquele merda, nada bom, nada bom" pensava Valentino. Após vinte minutos, a ambulância apareceu. Precisaram de dois enfermeiros, além de Valentino, para conter o sujeito. Os caras ficaram assustados ao verem o olho completamente negro do sujeito, mas Valentino disse que era efeito de um tipo novo de droga, apesar de ele mesmo duvidar dessa explicação, após velo subir na parede.
  Após a ambulância partir e a multidão de curiosos se dispersar, ele montou no carro. Antes de tudo foi em direção ao bar do Gomes. Após passar a adrenalina, começara a sentir seu ombro doer, a mordida fez um belo estrago. "Depois passo na enfermaria, mas por hora, precisa de uma gelada".


***

Francesca

  Francesca estava jogada na cama, exausta, após ter arrumado a bagunça na piscina. Um leve arrependimento de ter convidado tanta gente passou pela sua cabeça. No entanto, sentia-se orgulhosa por ter conseguido arrumar tudo sozinha. Então, tomando impulso com as pernas, levantou-se da cama e foi para o banheiro, precisava de uma hidro para relaxar o corpo. Tirou do braço um punhado de pulseiras de cadeado da Hermes, depois o cinto, short e blusinha, ficando apenas com as roupas íntimas. Então, abriu a torneira para que a banheira se enchesse. Virou-se e escorou na beirada da banheira, deixando seus pensamentos irem longe.
  A primeira coisa que veio à cabeça, foram suas férias passadas, em Saint-Tropez na França. Estava sentada no banco de madeira cuidadosamente entalhado, no Nikki Beach Club, próximo às camas de ópio, quando um rapaz sentou-se ao seu lado. Evandro o nome dele, filho de um brasileiro dono de uma rede de joalherias na Europa. A princípio, Francesca ficou incomodada com a ousadia dele em sentar-se ao seu lado sem ser convidado. Então ele começou a puxar papo com ela em inglês, e quando ela deu por si, já estava envolvida em seu papo. Aquela semana foi maravilhosa, ela sentiu-se muito feliz ao lado dele, mas para ela aquilo significava uma coisa, e para ele, outra. Ela acreditava estar entrando em um relacionamento, e ele só estava "curtindo" a viagem. Ao final da semana, ele foi embora, sem nem ao menos deixar recado. Isso enfureceu Francesca, tornando-a mais rabugenta do que já era de costume. Isso a magoou tanto, que quando sua família foi o Brasil, ver o carnaval carioca de camarote, ela preferiu ficar, por raiva e ressentimento de Evandro, que era brasileiro.
  Estava recapitulando o ano anterior, quando sentiu algo em seu cabelo. Era o nível a agua que já havia subido e estava movimentando-o. Então virou-se e fechou a torneira, despejou um pouco de sais de banho cor-de-rosa, despiu-se do soutien e calcinha, e então entrou na banheira, pondo lentamente o pé direito, depois o esquerdo, e então afundou lentamente, apoiando-se na borda. Ligou a hidromassagem, o fluxo da água passando pelo seu corpo era reconfortante, massageava e relaxava os músculos fatigados. Um leve perfume vindo dos sais chegou ao seu nariz, ela então sorriu, fechou os olhos e soltou-se, apoiando a nuca no encosto da banheira.
  Francesca sabia que era uma mulher muito bela, ela percebia os olhares por onde passava. Ela era bonita, vestia-se bem, e era rica. "Então por que estou sozinha?" pensou. Esse era um mistério que magoava seu coração. No fundo, tudo que ela fazia era para chamar a atenção, tentava enaltecer suas próprias qualidades. E modéstia parte, conhecia muito bem elas, por isso que não entendia o que havia de errado. "Será que não mereço o amor?". Então lembrou-se de sua infância, em que não tinha a atenção que desejava. Não se tratava de presentes, mas de calor humano. Então seu sorriso mudou, seus lábios tremiam. Ela lembrou-se de Elliot. "Por que estou lembrando desse retardado?" o pensamento lhe corroía, mas controlar o coração nem sempre é tão simples. Ela precisava fazer alguma coisa.
"Já sei, vou até lá para ver ele. Assim vou ver o quanto ele não está nem ai pros amigos, e vou parar de pensar nele".
"E então, em um belo dia, em qualquer esquina, em uma mesa de restaurante, ou mesmo na beira da piscina do clube, encontrarei o Sr. Feito pra mim".
  Seu pensamento lhe convenceu. Ela precisava ir até o apartamento dele. No fundo não era exatamente para esquece-lo, mas resultado de um fundinho de esperança de que talvez fosse ele o cara certo. Talvez toda tragédia que aconteceu tivesse um motivo maior. Apesar de mórbida e irritante, era essa a ideia que passava pela sua cabeça.
"Eu vou lá".

***


Elliot

  Os olhos, eles pesam tanto. O corpo está tão pesado, não há força... Ele sente que precisa acordar. Abre os olhos e surge um ambiente iluminado, porém estava tudo embaçado... pouco a pouco tudo vai voltando a se tornar nítido, ele encontra-se no chão da sala de seu apartamento. O primeiro pensamento: "Aisha!". Elliot olha ao seu redor, mas ela não estava ali.
--Aisha! - grita, com a voz trêmula. Ele sente-se esgotado.
--Cadê você? - perguntou. Então veio uma tremenda dúvida sobre o que havia acontecido de verdade. Apoiou-se com a mão, veio a dor. Lá estava, os cortes da madrugada anterior, o sangue seco.
--Droga. - onde estaria Aisha. Havia ele sido abandonado pela sua ilusão, o seu "anjo caído"?. Suas ideias estavam mais claras agora do que na madrugada anterior. "Anjo caído. Isso significa que ela é um demônio? Que porcaria de mistura que fiz?!". Já estava cogitando pôr uma pedra em cima de tudo que havia acontecido, quando algo chamou sua atenção. A luz do sol que vinha da varanda, iluminava algo na sua frente. Então ele levantou-se cambaleando e foi até lá ver. Agachou-se e pegou. Era um fio de cabelo comprido, e... era prata. Assim como os cabelos platinados de Aisha.
--Foi real?! - perguntou Elliot para si mesmo. Uma certa felicidade invadiu seu coração. Então ele lembrou da parte que ela havia dito sobre o sangue. Pensou em se cortar novamente, mas ele estava fraco, devia ser pelo tanto de sangue que perdeu na noite anterior; o chão estava todo sujo de sangue coagulado. Havia cacos do vidro perto da cozinha. Sim, aquilo havia sido real. Ele ainda segurava o fio de cabelo de Aisha.
--Preciso fazer algo - "Mas o quê?" pensou.
A campainha toca.

***


Continua...

por: Fernando Bonvento





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