domingo, 8 de setembro de 2013

Nameless Chronicles - Cap I

  Antes de começar a ler o 1° capítulo, leia o prólogo, clicando AQUI. Conheça a história de Elliot e Aisha. Até que ponto você iria pelo que sente? Quais os seus valores? O que é certo e errado, o que é real?



  Dominique saía à passos largos dos arquivos do Vaticano, passando por intermináveis estantes contendo documentos que estavam ali à vários anos, desde que retornaram da França, quando foram expropriados do Vaticano por Napoleão Bonaparte. Ele entrou no elevador, depois passou pela segurança sem nem ao menos encarar ninguém no rosto, sua angústia era evidente. Passando pelo estacionamento, Dominique caminhou por alguns corredores até encontrar uma pequena sala com alguns arquivos, uma mesa e cadeira. Sentou-se na cadeira e pôs-se a discar para algum número. O seu aparente nervosismo o fez ter de corrigir três vezes antes que discasse o número correto.

--Venerável, é Dominique. Temos um problema. - Dominique afrouxou a gola de sua camisa enquanto falava ao telefone - de alguma forma Edgar teve acesso aos manuscritos de Isaías.
--Imbecile! - a voz misteriosa mostrava-se muito irritada - Você deveria tê-los entregue à muito tempo para o Cardeal Lúcio!
--Eu s-sei.. mas... - Dominique começou a gaguejar, quem quer que estivesse do outro lado, provocava medo nele.
--52 Milhas de estantes de documentos carcomidos, e você ainda conseguiu cometer esse descuido!
--Pe-perdoe a minha falha, venerável. - apesar da potente refrigeração que chegava na sala em que ele se encontrava, gotas de suor começavam a escorrer pela sua testa.
--De forma alguma o papa deve tomar ciência dos fatos, está entendendo? Dê um jeito, pegue as provas imediatamente e suma com elas, entendeu?!
--Sim... - não houve tempo de terminar a frase. Dominique ouve o misterioso interlocutor bater o telefone em sua cara, a ligação havia sido encerrada.
--Droga! - esbraveja Dominique, um homem na faixa dos 40 e poucos anos, cabeça completamente careca, sobrancelhas ralas e aspecto de ranzinza. Ele sabia que deveria tomar alguma atitude, Edgar não ficaria quieto por muito tempo, ele esperava que Dominique o ligasse com o pontifício conselho.
  Havia muita coisa em jogo por trás de tudo isso, e Dominique sabia muito bem. Dois anos atrás ele havia sido encubido de entregar os manuscritos ao Cardeal Lúcio, mas o seu interesse por documentos históricos somado ao medo de que o Cardeal os destruísse, o fez deixa-los escondidos entre outros documentos em uma seção qualquer, até que ele encontrasse um jeito de retirá-los de lá sem que ninguém notasse. No início do ano seguinte, a situação mudou: alguma informação chegou ao conhecimento da liderança da Opus Dei. Os manuscritos outrora de pouca importância, pareciam agora ser de suma relevância para fatos vindouros.

  Para muitos, a fé é muito mais do que religião, ela é um negócio. Papas vem e vão através dos séculos, a única diferença é que eles costumam durar mais tempo que os governos. Mas sempre tem que haver um controle por trás de tudo, o governo perpétuo; sem ele as coisas não funcionariam, e qualquer marinheiro de primeira viagem que caísse de gaiato no navio poderia por séculos de uma doutrina por água abaixo.
  Anos atrás a igreja católica havia sofrido um enorme baque: diversos escândalos de pedofilia envolvendo padres ao redor do mundo puseram a sua credibilidade em risco, mas a pedofilia era o menor dos problemas. Até então, financeiramente a igreja católica era uma das mais poderosas instituições mundiais, mas devido aos escândalos, diversos investidores deixaram de injetar dinheiro na instituição, e isso significou bilhões de euros. Quando o fiel deixa o dinheiro do dízimo e as ofertas na igreja do bairro, o padre usa o dinheiro para pagar as contas e repassa 10% para a diocese. Então as dioceses do mundo todo por sua vez, pagam impostos para o Vaticano, o que soma algo em torno de mais de 30 milhões de dólares. Mas não é só o dinheiro católico que sustenta o Vaticano, essa é apenas a pequena "raspa". O Vaticano mantém uma carteira de investimento de bilhões de Euros, entre eles estão ações, terras e imóveis. Nessa parte que o Vaticano sofreu mais. Diversos industriais poderosos que investiam na igreja, deixaram de injetar as quantias exorbitantes de dinheiro no Vaticano, após os incidentes; dinheiro esse que era usado em investimentos e gerava muito mais dinheiro ainda. Apesar de tudo, o Vaticano ainda possui o seu próprio banco, que cuida das finanças de funcionários e paroquianos de todo o mundo. Dinheiro e influência significam poder neste mundo, sem poder você não é ninguém.
  Se esses "pequenos" fatos geraram um tremendo estrago financeiro para o Vaticano, o que estava por vir, além de gerar uma crise de fé sem precedentes, ameaçava completamente o modo de vida luxuoso de muitas pessoas, e não só isso: também poderia significar o fim do mundo como o conhecemos. Algumas pessoas viam as notícias nos bastidores com descrença, e outros no entanto, "armavam-se para a guerra". Havia muita coisa em risco, a renúncia do antigo papa já era um prenúncio de mal agouro do que estava por vir. Esse era um jogo muito perigoso e Dominique tinha noção disso, ele era apenas um peão no tabuleiro.


***



Roma, dia seguinte.
Francesca

  Ah, Dio Santo! Que preguiça de arrumar essa bagunça. - reclamou Francesca, uma bela jovem de cabelos ruivos cor-de-cobre, rosto delicado com algumas sardas e olhos azuis. Francesca estava aproveitando bem as suas férias, sabia que no próximo ano deveria pegar firme nos estudos e melhorar suas notas. Ela estava na mesma classe de Elliot, pretendia se tornar uma engenheira de sucesso, assim como seu pai, o poderoso empresário do ramo da construção civil, Giovani Marossi.
--Paola, quebra essa pra mim por favor, por favor, por favor! - implorou Francesa.
--Eu já sei o que você quer, e a resposta é não, eu estou de saída. Ciao! - Responde Paola, a irmã mais nova de Francesa, bem parecida com a irmã, mas seu cabelo é mais escuro, puxado para o castanho-avermelhado, e seus olhos também são castanhos.
--Hmpf! - Resmungou Francesca - Quer saber, depois eu dou um jeito nisso, papai não vem para casa hoje mesmo.

  No dia anterior Francesca havia convidado alguns amigos para uma festinha em sua piscina. Inclusive havia ligado quatro vezes para Elliot, e deixado uma mensagem de voz, mas não obteve retorno. Havia apenas uma cozinheira na casa, uma das faxineiras havia sido atropelada no dia anterior e estava hospitalizada, e as outras duas haviam acompanhado seus pais à Milão; Na realidade, onde Giovani fosse, Aileen, a mãe de Francesca e Paola, uma mulher de origem escocesa, ia junto. Ela era uma mulher do tipo possessiva e extremamente ciumenta. Então, devido à tais infortúnios, havia sobrado para ela dar conta da bagunça que ficou no local.
  Francesca pegou a Mercedes SLS de seu pai e partiu sem rumo pela cidade. Ela sabia que seu pai a mataria se ele soubesse que ela pôs as mãos naquele carro, um dos preferidos dele; mas ela não se preocupava, tinha um senso de superioridade que fazia pensar ser intocável, e tudo que fizesse sempre iria acabar bem. Talvez o exagero de Giovani em fazer as vontades de Francesca e mima-la na infância para compensar a constante ausência familiar, tivesse construído esse ego nela. Na realidade, hoje em dia essa ausência nem importava mais para ela, o que mais lhe doía era a falta de um companheiro amoroso.
  Ao passar por uma rua aos arredores da faculdade, ela teve um relance. Avistou à sua frente o predinho em que fica o apartamento de Elliot, e teve a impressão de ver alguém na sacada, talvez ele. Então ela olhou novamente para o alto, mas não havia ninguém lá. Isso foi tempo suficiente para ela quase bater na traseira de um carro que estava a sua frente, mas felizmente, conseguiu frear a tempo.
--Droga, essa foi por pouco. - Apesar de sua ousadia petulante, ela sentiu seus braços amolecerem. Isso foi provocado por um fundinho de medo de encarar seu pai bravo, ou pior, desapontado. - o que será que aquele babaca está pensando, ignorando as pessoas assim? - disse Francesca, irritada com a atitude de Elliot em ignorar os telefonemas.
 Quando os Collins - a família de Elliot - se mudaram de Nova Iorque, nos Estados Unidos, para Roma, ele tinha apenas 4 anos de idade, a mesma idade de Francesca na época. John, o pai de Elliot havia conseguido o cargo de diretor executivo em uma multinacional, então eles compraram uma casa em frente à casa onde Francesa morava. As vezes ela ficava observando aquele menino de cabelos negros brincando com seu pai nos finais de semana em frente ao gramado da casa, e imaginava como seria bom poder fazer o mesmo.
  Apesar de morarem um de frente com o outro, nunca se encontraram por lá. No 5° ano da escola, eles estudaram na mesma classe, mas Francesca achava Elliot um menino esquisito, apenas. Com o passar do tempo eles voltaram a se encontrar na faculdade, Francesca havia ficado pasma com a mudança de Elliot, notou o rapaz belo em que havia se tornado e começou a nutrir um interesse por ele. Mas, já era tarde, ele e sua amiga Olívia haviam começado a namorar. Fracesca parecia ter se conformado com isso e seguido em frente tendo nutrido apenas uma relação de amizade com Elliot, mas após o trágico incidente que ocasionou a morte de Olívia isso mudou. Francesca sentia-se confusa, por um lado ela via uma oportunidade de se aproximar de Elliot, e por outro lado, ela sentia-se desprezível por pensar em se aproveitar desse momento lúgubre. Elliot estava solteiro, mas sabendo que isso tinha relação com a morte de sua amiga, fazia as vezes ela sentir raiva de Elliot e de si mesma. Os sentimentos a confundiam frequentemente, mas seu instinto impetuoso levava-a a tentar se aproximar dele para "ver no que vai dar".
"Talvez eu devesse passar lá e ver como ele está" pensou Francesca. Mas não, seu orgulho falou mais alto. Ela estava parada pensando, o carro em frente já estava virando a esquina mais à frente, os carros atrás já começavam a buzinar. Ela então pisou fundo no acelerador e saiu cantando os pneus.

  Francesca decidiu parar em algum café e espairecer as ideias. Sentou-se em uma mesinha na calçada e pôs-se a mexer no celular. Ela estava no automático, estava movimentando os dedos, mas não tinha consciência do que estava fazendo, seus pensamentos estavam longe dali. A garçonete com o bloco de notas na mão havia chamado por ela três vezes, vendo que ela não respondia, acabou desistindo e foi atender outra mesa. Francesca  percebe estalos de dedo em frente ao seu rosto, era Dimitri.
--Ei, doida, acorda!- disse ele, um jovem de cabelos castanhos, filho de um diplomata russo que estava morando em Roma. Francesca voltou a si.
--Quem você pensa que é para falar comigo assim, seu merdinha?
--Haha, calma, só estava brincando, você sabe... - respondeu Dimitri.
--Sei... a propósito, você sabe por onde anda Caterina essas horas? - Francesca estava se referindo à namorada de Dimitri.
--Humm - Ele parou para pensar - para falar a verdade, a ultima vez que a vi, ela estava entrando em uma loja ali atrás - e virou-se para apontar para o local, onde passavam algumas pessoas pela calçada, examinando as vitrines das lojas. O verão no hemisfério norte deste ano trazia um clima perfeito, ao contrário dos outros anos em que houve insuportáveis ondas de calor. Estava uma tarde agradável, turistas passeavam tranquilamente pelo local, podia-se sentir uma leve brisa, alguns pombos andavam no meio fio, procurando por migalhas derrubadas das mesas em frente ao café; sons de sinos ao fundo.
--Eu não namoraria com alguém que não tem paciência de me esperar em uma loja. - disse Francesca cruzando os braços, ainda segurando o celular na mão direita.
--É por isso que eu estou com Caterina - sorriu Dimitri - ela não é tão encanada quanto você. E é por isso também que você está à anos encalhada!
  O comentário de Dimitri atingiu em cheio o calo de Francesca, ele pode notar o rosto dela enrubescer de raiva, mas ela não respondeu à sua provocação. Apesar de Francesca ter o pavio curto, ela já estava acostumada com o jeito de Dimitri. Desde que ele havia se mudado para Roma, e na semana seguinte começou a namorar Caterina, ela teve de aturar as brincadeiras de Dimitri, então ela acabou desenvolvendo uma certa tolerância aos seus comentários inoportunos.
--Então... - começou a falar Francesca, após alguns segundos de reflexão - Você teve alguma notícia sobre o Elliot? - Francesca mechia o porta-guardanapos  de um lado para o outro, como um tique nervoso.
--Haha, estava imaginando quanto tempo você iria demorar para perguntar sobre ele - Dimitri estava se divertindo, ele já suspeitava do que Francesca sentia por Elliot, que ficou ainda mais evidente após a morte de Olívia. - Você deveria é se afastar desse cara, depois da morte de Olivia ele ficou louco. Fiquei sabendo que tentou suicídio e tudo mais. É apenas um conselho de amigo.
--Você não sabe o que está falando, - respondeu Francesca, visivelmente desconfortável - você fala como se eu tivesse interesses ocultos por ele, mas eu falo como amiga. Amigos deveriam ajudar uns aos outros.
--É o que estou fazendo agora, Fran. Estou ajudando uma amiga, aconselhando ela sem cobrar um mísero euro sequer. - Respondeu Dimitri. Francesca apenas acenou negativamente com a cabeça, apertando o canto dos lábios. A garçonete apareceu novamente perguntando o pedido da mesa.


***



Elliot

  Quando as pessoas cometem crimes, elas são encarceradas, privadas de sua liberdade. Essas pessoas anseiam por sair do cárcere, refletem sobre suas atitudes, sofrem, mudam, e quase sempre pra pior. Eu estou em meu próprio cárcere, não que eu esteja sendo punido pela justiça dos homens, por causa da morte de Olivia, mas estou sendo submetido à minha própria justiça. Fui julgado e condenado pelo meu próprio subconsciente, que não me deixa em paz. Estou em uma prisão à qual não posso ver e nem tocar as paredes, mas mesmo assim sinto que elas estão lá para demonstrar minha impotência perante as circunstâncias de minha vida.
  Os tons de vermelho do entardecer Romano tingiam as paredes da sala do apartamento. Vermelho, me faz lembrar daqueles olhos, a quem eles pertencem? Quem seria minha misteriosa visitante noturna? Um fantasma que veio para me atormentar, ou uma ilusão causada pela minha solidão? Perguntas pipocavam em minha mente, assim como uma criança curiosa. Preciso tomar banho.
  A água quente escorria pelos meus cabelos, passando pelo ouvido produzindo um som grave. Por um instante o mundo todo à minha volta se cala, por um instante aquele barulho é o meu refúgio interior. Apoio-me na parede de azulejos brancos. Pude perceber um vulto com o canto dos olhos, virei-me mas não havia ninguém. Eu ri comigo mesmo, quem poderia estar no banheiro, além de mim mesmo e minha consciência pesada?
  Distrai-me novamente com os pensamentos, embaixo da água quente do chuveiro. Novamente posso perceber um vulto com o canto dos olhos.
-- Porra, quem está ai? - gritei. Não houve resposta, como era de se esperar, pois não havia ninguém. Droga, vou pedir pro médico aumentar a dose dos remédios, pelo visto não está sendo o suficiente. Desligo o chuveiro e abro a porta, ainda me enxugando com a toalha. Novamente volto a pensar na minha visitante noturna. Como ela era bela, apesar de não ter tido oportunidade de notar tantos detalhes à respeito dela, os seus seios não saiam de minha mente. Metade de mim sentia-se culpado por pensar nesse tipo de coisa após a morte de Olívia.
-- Por quanto tempo mais eu vou ter que conviver com o seu fantasma, Olivia? - perguntei para as paredes.
  Eu tentava convencer a mim mesmo que era natural pensar nessas coisas, eu estava solteiro no final das contas.
-- Olívia, onde quer que esteja, me perdoe por tudo, você sempre foi uma grande companheira e sempre esteve ao meu lado. Por favor, me deixe seguir em frente. - Eu precisava dizer isso. Nunca fui de conversar com os mortos, ou mesmo santos, apesar de crer no sobrenatural, mas se tivesse um ínfima possibilidade de ela estar me ouvindo, gostaria que pelo menos ela soubesse que eu não quis que nada daquilo acontecesse a ela. Após isso me senti um bobo em falar sozinho. "Seguir em frente", eu ri pensando nessa parte. Seguir para onde? Foi então que meus pensamentos foram interrompidos por uma risada que ouvi. Um leve choque percorreu meu corpo. Eram apenas vizinhos passando pelo corredor do prédio, mais uma vez eu ri de mim mesmo, que tolo.
  Já era noite, eu estava jogando vídeo-game, mas meus pensamentos estavam vagando longe, mais especificamente na garota dos olhos vermelhos; era assim que eu me referia à ela em pensamento. Talvez fosse a falta de sexo, eu parei pra pensar que desde o acidente eu não havia nem ao menos "dado uma aliviada", me masturbando. Aqueles seios não saiam de minha cabeça, nessas horas é foda ser homem, a concentração vai por água abaixo, eu estava perdendo feio no jogo. Me estiquei para trás na poltrona e falei comigo mesmo:
--Como eu queria que você fosse real, garota...
"Poderia ser real" - uma voz falou em minha cabeça. Larguei o controle, ele quicou na beirada da poltrona e caiu no chão da sala. Meu coração disparou de susto.
-- Quem está ai?! - perguntei, gritando alto. Não obtive resposta, respirei fundo e soltei o ar pela boca, bufando. Preciso beber alguma coisa, pensei. Levantei-me da poltrona e fui para a cozinha, vasculhando os armários. Havia uma garrafa lacrada de tequila ouro, que não é a minha preferida, mas por ora vai servir. Eu sei o que dizem sobre misturar álcool com os remédios que eu tomo, mas foda-se.
  O primeiro gole me fez perceber o quanto eu estava desacostumado à beber destilados: fiz até careta. Depois de alguns goles, ficou mais fácil. Quando percebi, a garrafa já estava pela metade e eu estava balançando, escorando-se no balcão. Um sentimento narcótico tomou conta de mim, deve ser resultado da mistura do álcool com os remédios. Eu ficaria bem melhor só com a tequila, deveria parar de tomar aquelas porcarias.
  Foi de uma hora para outra que aconteceu, e eu nem percebi, pois estava ocupado demais tentando andar em linha reta, eu acabei adormecendo no chão. Já devia ser de madrugada, a janela da sacada ainda estava aberta do dia anterior. Uma voz me fez abrir os olhos. "Acorde".
  Meus olhos abriram, fecharam e abriram novamente. Então eu pude ver, próximo à janela da sacada, estava ela, a garota dos olhos vermelhos me encarando. Ela estava mais nítida dessa vez, seria uma ilusão, ou havia mesmo uma pessoa ali? Fechei meus olhos novamente, botando força e abri-os novamente para ter certeza. Ela realmente estava lá, eu continuei encarando-a sem dizer nada, ela esboçou um sorriso.
--Q-quem é você? - perguntei - Como entrou aqui? - Ela veio em minha direção, lentamente. Ela vestia apenas um vestido branco, de um tecido muito leve que realçava seu corpo. Realmente era a mesma pessoa que estava em cima de mim no outro dia. Não pude controlar, uma das primeiras coisas que observei foi o volume e formato de seus seios, os quais se destacavam por baixo de seu vestido.
  Ela chegou perto de mim e agachou-se para me olhar de perto. Enquanto ela me olhava, um certo arrepio correu pela minha espinha, um sentimento estranho, só não pude decifrar se isso era bom ou ruim.
--Aisha. - Ela disse apenas isso. Então esse é o seu nome, diferente. Olhei para baixo e não pude deixar de notar seus pezinhos brancos e delicados, tudo em sua aparência me chamava a atenção e despertava-me um interesse o qual nunca havia sentido antes. Outro detalhe quase me passou despercebido, a sua voz, ela não me era estranha, só não sabia de onde a conhecia.
--Aisha, é? -- respondi -- Mas como você entrou aqui? O que você esta fazendo? Porque está aqui? -- Disparei, bombardeando-a com perguntas. Algo que não posso negar é a estranheza dessa situação, apesar de ela ser uma bela garota, eu não sei quem é ela e quais as suas intenções. E se for alguma maníaca, ou pior, e se eu estou apenas vendo coisas? Essa possibilidade eu ainda não havia descartado.
--Quantas perguntas. - Ela sorriu novamente, e pôs a mão nos alvos cabelos, mexendo do pescoço em direção ao couro cabeludo. - Você sabe quem sou eu, por minha causa você está aqui.
--Como assim? - perguntei. O que ela disse apenas me deixou mais confuso do que já estava. Eu me sentia meio zonzo, apesar de ter dormido, a mistura que fiz foi muito forte, ainda podia sentir os pesados efeitos.
--Você me chamou, então eu vim - Disse ela, esticando a mão que estava mexendo em seu cabelo e tocando o lado esquerdo de meu rosto. Seu toque era realmente quente, eu podia sentir, então aquilo podia ser realmente real. Por um momento, senti uma certa felicidade, não sei ao certo de onde vinha ou o porquê.
--Eu te chamei? - perguntei - Eu não quero parecer grosseiro, mas quando foi que isso aconteceu? E como foi que você entrou? Eu deixei a porta aberta? Era você que estava aqui noite passada?
--Eu pude vislumbrar o seu desespero, o quão fundo você foi, então eu pude te alcançar. Eu estou aqui por sua causa, Elliot. - disse ela. Então ela sabe o meu nome. - Você não precisa mais sofrer, você só precisa de meu amor.
--Seu amor? - perguntei - Você ainda não respondeu as minhas outras perguntas. Como foi que você entrou aqui?
--Eu não preciso entrar, eu já estou aqui com você. - Sua atitude aparentemente evasiva me deixou desconfiado. Eu comecei a me levantar, senti que o meu equilíbrio ainda estava abalado, mal consegui me levantar. Então encarei-a de cima. Ela também se levantou e olhou para mim, olhos nos olhos. Novamente pude encarar os seus olhos vermelhos, apesar de estar na penumbra eles eram evidentes. Como poderia ser isso? Lentes?
--Aisha, eu não sei que tipo de educação você teve, mas a que eu tive me diz que é errado entrar na casa de outras pessoas, ainda mais se elas não te convidaram.
--Olhe, Elliot. Eu te encontrei, agora, por favor, me ajude a viver também. - Viver? Como assim? Tudo que ela falava não parecia ter nexo algum, não sei se foi o efeito da mistura entre o álcool e remédios controlados, ainda presente em meu organismo, ou se realmente havia algo muito errado com ela. Me levantei e dei as costas para ela, eu precisava acender a luz para ter certeza absoluta de que eu estava acordado.
--Não faça isso "Elli". - foi o que ela disse. Assim que meus amigos mais íntimos me chamavam, talvez ela tenha alguma ligação com eles. Será que eles a mandaram aqui para me tirar do apartamento? Engenhoso. Virei-me novamente para ela e disse:
--Foram eles que te mandaram aqui, não é? - senti-me um tolo pela atração que eu estava sentindo por ela.
--Você não faz ideia do que está acontecendo, agora é hora de você fazer a sua parte por mim.
--Minha parte? - respondi - E Aisha, o que é? Seu nome de guerra? Quem te mandou aqui?! - o meu tom de voz estava visivelmente alterado. Quando eu proferi essas palavras, ela instantaneamente mudou sua expressão angelical e veio quase que instantaneamente em minha direção, me pressionando a jugular. Quase não pude acreditar no que estava acontecendo, era surreal a força com que ela me estrangulava, era sobre-humano. Apenas consegui emitir grunhidos, nunca havia me sentido sufocado antes, era uma sensação horrível, a dor, a asfixia, a pressão nos olhos. Então ela me soltou, eu apenas caí no chão tossindo.
--Você deveria aprender a ter mais respeito pelo próximo, sabia? - Aisha disse-me calmamente, como estava antes de me atacar - Muitos de vocês nem ousariam erguer o rosto perante a minha presença.
  Eu acho que estava enganado, naquele momento havia passado pela minha cabeça a hipótese de ela ser algum tipo de garota de programa contratada por algum amigo para me tirar da "fossa". Sua aparência era muito incomum, extremamente bela e exótica, e só isso poderia explicar o seu interesse em mim, sem nem ao menos me conhecer. Agora minha opinião havia mudado, toda aquela conversa bizarra, ela só poderia ser alguma pessoa muito perturbada que fugiu de algum hospital psiquiátrico. Olhei-a novamente de cima à baixo. Droga, parte de mim queria expulsar essa louca de meu apartamento mas outra parte queria tê-la ali mesmo. Ela retribuiu o meu olhar invasivo e sorriu.
--Gosta do que vê? - disse ela. Não percebi que estava tão evidente assim o que eu estava pensando, ou então ela lê pensamentos também, além de ter uma força descomunal. Sua aparência angelical não combinava em nada com aquela força. Eu precisava vê-la melhor, a leve iluminação presente no local vinha da rua, ela realçava os delicados contornos de Aisha, mas eu precisava ver mais. Virei-me novamente para o acendedor.
--Não! - gritou Aisha. Apenas senti-a tocar atrás de meu braço, antes que eu  acendesse a luz da sala. Virei-me novamente para pode-la ver melhor. Não havia nada. Olhei atrás do sofá para ver se ela havia se escondido, mas também não estava; não era possível ela ser tão rápida assim. Tropecei na garrafa de tequila jogada no chão, mas rapidamente me recompus. Procurei-a pela cozinha, banheiro, quarto, chamei por ela, gritei, olhei embaixo da cama, dentro do guarda-roupas. Voltei para a sala e então fui até a sacada, naquele momento senti um grande medo de que ela tivesse se jogado de lá. Mais uma morte em minhas costas seria demais para aguentar.
  Debrucei-me na sacada e olhei para baixo, não havia nenhum corpo lá embaixo, apenas duas pessoas passando pela calçada e um carro passando. Uma brisa gelada ardia em meus olhos, senti uma leve vertigem , então afastei-me de lá. Comecei a cogitar agora uma outra possibilidade: alucinação. Eu estava sofrendo os efeitos colaterais da maldita mistura que fiz. Era isso ou algum fantasma; eu sempre tive interesse pelo sobrenatural, tanto eu como Olivia. Era uma espécie de hobbie que eu tinha, pesquisar esse tipo de assunto.
--Droga, que seja - falei sozinho. - estou ficando louco de vez!
  Fiquei pensando sobre a garota, bem que poderia ser real. Ao contrário das outras pessoas, ela não me causou nenhum tipo de 'estranheza vertiginosa' ao contato.
"Pode ser real". Uma voz surgiu novamente, olhei à minha volta e não havia nada.
--Isso só pode ser brincadeira! - voltei para a sala e chutei para longe uma almofada que estava no chão. O telefone tocou. Deixei tocar até cair na caixa de mensagens. Ele voltou a tocar novamente e mais outra vez. Então resolvi atender.
--Droga, quem é?! - atendi irritado. Mas não havia ninguém do outro lado, a linha estava muda.
  Voltei para a sacada tomar um ar, a situação estava ficando estranha e parte de mim temia que tudo isso que estava acontecendo poderia ser parte de alguma loucura. Como eu poderia ter certeza se estou ou não são?
  Olhei para baixo, parecia haver alguém me espiando do outro lado da rua, mais exatamente na esquina. Não dava para ver direito, pois já era noite. Talvez fosse paranoia demais na cabeça.
--O que pode ser real?! - gritei.
"Eu". Era a voz de Aisha. Voltei para dentro transtornado, procurei mais uma vez por ela, mas não a encontrei. Então dessa vez me veio um estalo na mente: ela havia desaparecido quando eu acendi a luz.
 Voltei a apagar as luzes, na esperança de vê-la novamente e tentar entender o que estava acontecendo. Procurei novamente por todo canto, parecia não haver sinal dela. A mosca do desapontamento já havia me picado, quando sinto algo me tocar nas costas, e eu me virei, então. Era Aisha, mas seu aspecto parecia totalmente difuso.
--O-O que é isso? - perguntei. Num misto de curiosidade e medo, afasto-me um pouco para trás.
--Sou eu. - respondeu ela calmamente, como se o que estivesse acontecendo ali fosse a coisa mais normal do mundo. - Eu sei que você está confuso então eu vou lhe explicar.
--Por favor - sentei-me no sofá, essa noite já havia sido demais para mim.
--Eu quero estar nesse mundo, quero viver de verdade, assim como você. De certa forma eu estou, mas não exatamente onde você está, há coisas que impedem isso. - ela então chegou mais perto do meu rosto - E você vai me ajudar.
--Eu?! - confesso que em vez de esclarecer minhas dúvidas, a coisa piorou. Apesar da estranheza da situação e de seu aspecto difuso, como uma imagem vista através de um vidro engordurado, eu não sentia mais medo.
--Sim. Você deve me ajudar, da mesma forma que eu te ajudei a continuar vivendo.
--Me ajudou a continuar vivendo?! - perguntei.
--Quando você tentou tirar a própria vida, fui eu quem te trouxe dos portões do abismo. - Foi aí que lembrei-me da voz que eu ouvi no hospital enquanto estava apagado. Era a voz de Aisha. Sabia que ela tinha algo de familiar.
--Você é meu anjo da guarda? - perguntei - olha, desculpa quando eu te xinguei e...
  Ela começou a rir.
--Quase isso... Digamos que sou a sua anjinha caída. - Seu olhos pareciam então, exibir algum brilho. Um arrepio correu pela minha espinha. Eu tentei chegar perto e toca-la, mas dessa ela estava intangível.
--Como eu posso te ajudar? - perguntei. Era só o que eu tinha: perguntas e dúvidas.
--Há um ato simbólico, mas muito especial. Trata-se de fé e algo que eu ainda não tenho - ela pareceu virar um pouco o rosto para o lado e então voltou-se para mim. - Sangue.
--Sangue?! Que papo estranho é esse? - respondi.
--Você não é capaz de entender a importância disso para mim. Você não estende porque é para ser assim, porque está oculto de vocês, mas eu também preciso viver.
--Quem é você, o Conde Drácula? - Ela riu do que eu disse.
--Aprecio o seu senso de humor, mas você deve me ajudar, só assim vou poder estar com você... para dar o meu amor. - Essas palavras ecoaram para dentro de minha cabeça. A ideia de sua companhia parecia me trazer algum conforto; algo que nunca havia experimentado antes com outra pessoa, se é que eu poderia a chamar de pessoa.
--Você quer o meu sangue?! - perguntei.
--Ele não será o suficiente - respondeu calmamente - e além do mais, você morreria sem ele todo.
--Então como? O sangue de algum animal morto? - perguntei mais uma vez. Estou começando a me achar realmente louco por estar conversando sobre algo desse calão naturalmente.
--Tem que ser sangue humano. Deve carregar a alma. - disse ela para mim, como se isso fosse algo natural - deve existir fé.
  A surrealidade dessa conversa estava botando em descrédito a veracidade de tudo aquilo que estava acontecendo comigo. Será que eu estou em coma, e isso é apenas um sonho? Ou será que eu estou morto e estou vendo uma assombração? Será que eu sou um fantasma? Droga, eu só sei fazer perguntas, preciso fazer algo para ter certeza quanto à isso. Fui até a cozinha e peguei um copo.
--Foda-se, eu preciso saber o que está acontecendo comigo - esbravejei - não é isso que você quer? Então toma de presente o meu sangue! - Bati com força a mão na parede que estava segurando o copo, despedaçando-o. Então veio a dor, e com ela, a certeza de que aquilo era real. Minha mão ardia muito, latejava. O sangue começou e escorrer pelo braço e pingar no chão. Meu corpo tremia, eu nunca gostei de ver sangue, mas após eu ter testemunhado a morte de Olivia, essa fobia havia se agravado. Quase que imediatamente, Aisha apareceu ao meu lado. Então ela começou a "lamber" o meu sangue, ou era o que me parecia. Conforme ela fazia isso, sua imagem se tornava mais nítida. Definitivamente, ela me deixou sem reação, eu até esqueci a dor que estava sentindo.
  Ela então olhou para mim, a pele alva de seu rosto estava machada com o vermelho de meu sangue. Sem que eu disse nada, ela me beijou, eu pude senti-la, senti o gosto de meu sangue, e pareceu tão doce. Então olhei-a novamente, ela estava lá: nítida, real e nua em minha frente.
--Você sabe que isso não é suficiente, Elli. - Aisha me disse.
--Compreendo. Mas por ora... - Então beijei-a novamente. Apertei-a forte contra o meu corpo. Percorri cada centímetro de seus costas, isso foi deixando um rastro de sangue em sua pele. Até seus alvos cabelos ficaram manchados, mas ela não parecia importar-se com isso. Pelo contrário, eu sentia seu corpo cada vez mais quente e extasiado, desejando mais e mais.
  Deitamos no chão da sala. Encarei-a nos olhos, aquelas retinas avermelhadas, nunca vi nada igual. Então ela puxou-me o rosto entre os seus seios. Comecei a devorar cada centímetro de seu corpo, descendo pela barriga, até a sua virilha.

***

  Do outro lado da rua, uma figura misteriosa trajando uma blusa cinza com o capuz cobrindo o rosto, observava atentamente a varanda do apartamento de Elliot. Um ônibus passa pela rua. Ele já não estava mais lá.


Ler Capítulo 2.1

por: Fernando Bonvento
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