domingo, 25 de agosto de 2013

Nameless Chronicles: O Prólogo.

conto, romance, aventura, ação, conspiração, história
  O que faz o bom ser bom e o mau ser mau? Até que ponto você chegaria por amor? O que você faria para preservar o que mais preza? Quando os conflitos entre os interesses pessoais e o bem maior da humanidade entram em ação, qual vencerá? Conheça a história de Elliot e Aisha.




Roma, 2013
Elliot.

  Ainda posso lembrar do som dos cacos de vidro do para-brisas do carro. Tudo parecia estar em câmera lenta. A violência da colisão jogou minha cabeça para trás e em seguida à direita. Esse ínfimo instante para mim durou uma eternidade. Eu tive de encarar os olhos de Olívia, eu pude ver o seu brilho apagar, bem na minha frente, sem poder fazer nada. Não pude fazer absolutamente nada, apenas observei as ferragens atravessarem o seu peito. Malditos vergalhões, perfuravam o seu peito um atrás do outro. E eu tive a maldita sorte de não ser atingido por nenhum. Tantos passaram pelo vidro, mas nenhum me atingiu.
  Será que foi aquele segundo a mais tomando o café? O laço de meu tênis que refiz? Os 5 minutos a mais de sono? A teoria do Caos, ou simplesmente o destino quis que fosse assim? Só eu sei o quanto pesa a culpa de uma morte, pois era eu o motorista.
  Foi no verão do ano passado, nas férias do quarto semestre da faculdade de engenharia. Íamos eu e minha namorada, de Roma seguindo rumo à cidade de Torriana, na Itália. Um segundo em que desvio o olhar da estrada e um caminhão que carregava vergalhões de aço para construção, veio de frente para o meu carro. Dizem que ele se assustou com um cachorro que entrou na pista. Vejam só, um cachorro.
 Eu só tive algumas escoriações e quase quebrei o nariz no airbag. Me disseram que eu tenho um bom anjo da guarda. Não fodam comigo, se ele é tão bom assim, onde ele se esconde agora?
  A família de Olívia me culpou pela sua morte. Em seu velório, - de caixão fechado - o seu irmão mais velho, Vicenzo, me acertou em cheio no nariz. Gotas de sangue espessas pingaram em meu sapato, eu estava tão inerte que mal senti dor, apenas o impacto de sua mão. Meus amigos me levaram de lá... Para piorar ainda mais as coisas, eu desenvolvi uma maldita sequela psicológica. Eu não sei qual foi o momento exato em que isso começou, mas eu não consigo mais sair de casa em paz. Aqueles rostos distorcidos das pessoas, eles me dão vertigem, sinto que vão me engolir, meu sangue gela, o coração dispara, o nível de adrenalina sobe. Não dá para controlar, pessoas são tão... terríveis.
  Desde então, meu quarto tornou-se a minha fortaleza da solidão. Minha mãe, com muito custo, me fez ir ao psiquiatra, eu mal conseguia olhar para o seu rosto. Ele então me receitou anti-psicóticos, antidepressivos e calmantes, como todo bom psiquiatra faz. Mas, o tiro saiu pela culatra. A culpa pela morte de Olívia me fez tentar suicídio por overdose de remédios. Não que ela fosse o amor de minha vida, éramos mais do que namorados, éramos bons amigos, compartilhávamos o mesmo interesse por folclores e lendas. O que mais me atormentava era carregar o fantasma da culpa, ver como as pessoas me olhavam diferente, isso é de destruir a alma de uma pessoa.
  Após tomar a cartela inteira de calmantes e mais um ou outro antidepressivo, pude perceber a diferença em relação ao dia do acidente. Pela primeira vez, eu pude sentir os braços gélidos da morte vindo me buscar. Tudo ficou escuro, uma sensação de leveza... a morte é tão...  singular. Eu pude ouvir uma voz feminina dizer "Elliot..." ela parecia me chamar. Olívia? Não, não era a voz dela. Nesse momento abri os olhos, estava tudo tão claro, seria essa a morte? Não, novamente não foi dessa vez. Toda aquela angústia que eu sentia antes, tinha tomado conta do meu ser novamente. Eu estava no hospital, vivo.
  Apesar dos protestos velados de minha família para que eu ficasse na casa deles, eu decidi retornar ao meu apartamento, próximo à universidade de La Sapienza. Eles tinham medo de que eu tentasse novamente o suicídio, mas os convenci de que não o faria mais. O que eu mais queria era me manter fora do alcance das pessoas, os remédios ajudavam um pouco à aliviar minha paranoia, mas mesmo assim era muito mais cômodo para mim o isolamento. Passava o dia navegando pela rede, jogando um jogo ou outro, tentando fazer passar o tempo. Mas passar o tempo para chegar o quê e aonde? Algo me dizia para continuar, seguir em frente, mas eu não conseguia imaginar uma nova direção para a vida. Ela não passava de uma estrada encoberta pela neblina, eu podia enxergar apenas alguns passos à frente, mas o que estava mais adiante era uma incógnita para mim. E após as férias acabarem, terei eu forças para continuar o meu curso? Se sim, e as pessoas, como elas reagirão ao me ver? O assassino de Olívia? Eu terei medo de encarar as pessoas? Ou será que tudo voltará ao "normal", o que acho pouco provável?
  São tantas divagações que meus pensamentos me enlouqueciam mais e mais. Amigos me ligavam insistentemente, querendo me tirar da fossa, mas eu apenas recusava os convites. Duas ou três vezes tocaram a campainha de meu apartamento, mas fingi não estar. E assim passaram-se alguns dias, não sei dizer ao certo quantos. Minha pele cada vez mais pálida, olheiras... eu me sentia cada vez mais frágil. Acho que comecei a delirar na solidão.
  Decidi abrir a janela da sala, e observar as luzes da cidade, deixar o vento levar aquele cheiro de mofo que ardia em minhas narinas. Virei o sofá em direção à janela da sacada, e fiquei apenas observando. Peguei no sono, e mais uma vez ouvi aquela voz me chamar. Abri os olhos, minha visão um pouco embaçada. Eu pensei ainda estar sonhando, havia um vulto branco na janela, me encarando. Mas não conseguia entender, parecia estar do lado de fora da sacada, à 3 andares de altura. Passei a mão nos olhos e abri-os bem, não havia mais nada lá. Droga, acho que a loucura está finalmente me dominando. Já imaginei como seria usar uma camisa de força, viver em uma clínica para doentes mentais, cuidar de uma horta e coisas do tipo. Um filme passou pela minha cabeça, em que eu viveria o resto de minha vida em um sanatório. Minha família me visitaria uma vez por semana, até que estivessem velhinhos e não pudessem mais me ver, os amigos finalmente teriam desistido de mim, e eu envelheceria lá, sem descendentes, sem um legado, sem ter feito nada de bom em minha vida. Como o ser humano é fugaz.
  Novamente, perdido em pensamentos, eu havia adormecido no chão da sala. Estava sozinho na escuridão, então ouvi novamente a voz me chamar: "Elliot....". Meus olhos se abriram lentamente, meu coração disparou. Havia alguém acima de mim. Fixei minha vista, pude apenas observar aqueles olhos castanhos quase vermelhos me encarando, então meu olho percorreu rapidamente a figura, de cima à baixo. Eu sentia um misto de terror e curiosidade, era uma figura feminina que estava acima de mim, sua pele branca chegava a quase emitir um brilho, como se fosse um espectro. Seria um fantasma? Apesar de tudo, pude começar a notar melhor o seu rosto, diferentemente das outras pessoas, seu rosto não parecia distorcido, era belo... muito belo. Seus cabelos caíam em direção ao meu rosto... claros como platina. Seria um sonho? Um anjo para me salvar da escuridão? Ou seria ela a morte? Pagarei agora por meus pecados?
  Ela se abaixou mais em minha direção, eu pude ver os seus seios, realmente belos, os mais lindos que eu já tinha visto. Meu corpo estava paralisado, apenas meus olhos podiam se mover. Eu estou sonhando? O que você quer de mim? Era o que eu pensava nesse momento. Ela não dizia nada, apenas me encarava. Fechei meus olhos, então eu senti ela me tocar. Algo como um beijo em minha testa.
  Abri meus olhos, não havia mais nada. Apenas o vazio de meu apartamento e o som dos carros passando na rua, que vinham pela janela. As cortinas moviam-se com o vento. Levantei-me e fui até a janela. O que foi aquilo? Será que finalmente me entreguei à loucura?
  Dizem que Roma é a cidade do amor. Parando para pensar, eu nunca conheci o amor, realmente. Todos os meus relacionamentos foram não mais do que superficiais. O que mais durou foi o que tive com Olívia, que terminou tragicamente e culminou nessa vida vazia a qual me encontro agora. Seria aquela mulher apenas uma projeção de minha mente, tentando escapar do vazio da solidão?
  Preciso lutar, vencer o meu medo de viver. Só não sei como, só não sei quando vou conseguir. Espera... o que estou sentindo nesse momento é vontade de viver? Estaria o meu instinto de sobrevivência sobrepujando o meu inferno pessoal?
  Fiquei lá olhando para o céu, mal podia enxergar o brilho de alguma estrela. As luzes da cidade, se não fosse por elas eu poderia vê-las. Apenas uma estrela se destacava, próxima à lua, seu brilho e tamanho eram incomuns, não me recordo de ter visto ela antes, mas sua beleza é incrível.



Cidade do Vaticano, 
arquivos do Vaticano
Edgar.
  Não pode ser, se isso estiver correto, a santa igreja corre um sério risco. Vossa santidade precisa imediatamente tomar ciência dos fatos, a aproximação desse cometa esta decorrendo conforme os manuscritos do profeta Isaías, que foram encontrados em 1312 sob posse dos templários.
-Dominique, me ligue imediatamente com o conselho.
-Sim, senhor. Qual o assunto?
-Os portões do abismo estão prestes a se abrir. A Santa Sé precisa agir.


Ler o Capítulo I


por: Fernando Bonvento





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