domingo, 18 de agosto de 2013

Conto: Vida na máquina

  O que faz você "existir"? Seus pensamentos, suas emoções? O que faz de você humano? O que faz o que você é? O que é real e o que é fantasia? Podemos confiar plenamente em nossos sentidos? Estamos livres ou vivendo na caverna de Platão?



 Sendo um programador, um dos meus sonhos sempre foi o de criar um jogo de vídeo original, algo que ninguém na indústria tenha feito antes.
Depois de ver o jogo Spore, fiquei intrigado. Aquilo foi uma tentativa de colocar as pessoas no controle de um universo. Depois de olhar para o que fez os videogames populares, eu percebi que o aspecto principal era o controle.
  Pessoas em suas vidas diárias não têm controle sobre seu ambiente. Elas recebem ordens do que fazer, para onde ir, e como viver. Seus trabalhos consistem em ficarem de pé ou sentados em algum lugar até as 18 horas e então elas estão autorizadas a voltar para casa. Não é nenhum mistério porque delas serem infelizes.
 Para muitas pessoas, videogames são uma fuga para um mundo em que eles estão no controle, ou para viverem uma falsa vida emocionante cheia de aventuras. O aspecto do controle é encontrado em jogos de estratégia, e a aventura em jogos de RPG em geral.
  Olhei para jogos como The Sims, e notei que o que os fizeram tão populares não foi apenas a ilusão de controle, mas o grau de controle. Você tem total controle sobre a vida das pessoas.
  Antes do The Sims, houve o Sim Earth. Um jogo em que você não controla as pessoas individuais, mas toda a terra! Cheguei à conclusão de que eu tinha que desenvolver um jogo semelhante ao Spore, em que o jogador sutilmente "guiasse" a evolução. O que fez Spore ser um fracasso foi a falta de controle realista que as pessoas tinham. Dificilmente se assemelhava a evolução.
  Para fazer isso, comecei por gerar um sistema de física. Sei pouco de física, mas decidi estudá-la, e tentar criar uma versão simplificada em que certas partículas pudessem interagir de maneiras específicas. Quando você começa a compreender, a física é simplesmente matemática complexa.
  Eu simulei energia e matéria, e criei um sistema simples, com um sol emissor de energia, circundado por um planeta coletando a energia.
  Eu decidi criar células básicas simples a partir do zero, que foram "codificadas" por assim dizer, no sistema que eu estava projetando. Eles viviam coletando a energia emitida pelo meu sol, e tinha um código "genético" que codificavam as substâncias produzidas pelas células. Acho que você poderia chamá-los de meus eucariontes.
  Meu mundo em poucos minutos foi preenchido com estas células, após elas terem sofrido mutação, as células mais eficientes na conversão de energia do sol em substâncias úteis para a divisão sobreviveram. Foi muito chato, mas funcionou, eu acho.
  Decidi expandir o sistema de física, e forçar as células a produziram resíduos, que eram tóxicos e iria matá-las. Notei que algumas células responderam a isto produzindo menos resíduos. Outros reagiram produzindo algo para emitir os resíduos nocivos. No entanto, outras desenvolveram uma química para limpar os resíduos.
  No entanto, notei algo fascinante. Executando a simulação por alguns séculos (alguns minutos na vida real), criou células que fizeram grandes quantidades de produtos específicos de resíduos de propósito. Notei que outras células morreram como resultado disso, o que as outras células responderam roubando os blocos de construção que as outras haviam criado à partir de energia. Os primeiros predadores nasceram.
  Com os primeiros predadores, a diversidade neste pequeno mundo aumentou rapidamente. Alguns aprenderam a fugir quando se deparavam com estas toxinas. Em Outros cresceu resistência aos mesmos. Os que cresceram a resistência acabaram por se utilizar dos produtos tóxicos.
  Eventualmente, eu percebi algo interessante. As células que se evadiam da toxina agrupadas com as células que utilizaram as toxinas. Elas ficaram juntas, e ajudavam umas as outras.   Eventualmente, estes tipos de células que uniam-se umas as outras. Formaram uma simbiose estranha, onde a célula que, normalmente, fugia, seria agora avançavam para locais onde estavam as toxinas, e a outra célula iria consumir as toxinas e fornecer o "caminho" em troca de alguma energia.
  Sem entrar em muitos detalhes, eu fiquei muito animado, e decidi deixar esta simulação executando durante a manhã (eu tinha ficado acordado até as 5:00), quando eu fui para a cama. Quando acordei em torno de 11 horas, notei que o mundo que eu havia criado tinha mudado, e ficou irreconhecível.
  Maciças estruturas semelhantes a plantas cresceram neste mundo, consumidas por outro organismo que se alimentava dessas plantas. No entanto, olhando para o log, percebi que o mundo não tinha mudado muito nas últimas duas horas ou assim. Eu tinha alcançado outro "ponto de estagnação", onde a simplicidade de minha simulação impediu uma vida mais complexa de evoluir.
 Eu expandi o sistema, através da quebra da "energia" em diferentes tipos, com diferentes comprimentos de onda que foram absorvidas em diferentes graus por moléculas diferentes. Eu implementei vibrações no ar, criei uma melhor simulação de peso, e fiz alguns ajustes mais leves.
  Isso fez com que a simulação fosse executada mais lenta é claro, mas valeu a pena o sacrifício. Eu fiquei o dia inteiro assistindo a simulação em excitação, e brincando com ela, pois ela ficou incrivelmente viciante. Organismos complexos evoluíram, o que cooperou com a empolgação. Plantas que dependiam umas das outras, ou que atraiam os predadores das criaturas que se alimentavam delas como forma de proteção.
  Eu me divertia, e notei que algumas criaturas evoluíram "chamadas de alerta". Isto significa que se eles notassem um predador, iriam emitir um som, e todos os outros de sua espécie fugiriam em buracos que haviam cavado na terra. Outros evoluíram "chamadas de acasalamento".
  Eu decidi ter um pouco de diversão. Eu fiz uma ferramenta de despejo, permitindo-me despejar organismos específicos sobre a Terra, e escrevi meu nome com ela. Eu criei 10 "meteoritos", e despejei-os em um pedaço de terra para criar uma ilha, porque eu queria ver se os animais presos em ambos os lados iriam evoluir em diferentes direções. Fiz uma ilha-sorriso, igual um "smiley", com erupções vulcânicas.
  Nessa hora, eu percebi que tinha ficado acordado até 5:00 novamente, quando eu ouvi os pássaros do lado de fora. Eu me senti cansado de novo, e dormi. Acordei às 13:00 mais ou menos. Quando eu olhei para a minha simulação novamente, senti uma sensação de choque.
  Diferentes grupos de animais de uma espécie tinham feito estátuas com pedras. Algumas na forma de um sorriso. Alguns na forma de meu nome. Eu não sabia por que eles estavam fazendo isso, ou como. O que eu notei é que eles tinham atacado uns aos outros ao longo do tempo.
  Eu não sabia o que fazer com eles, mas cheguei à conclusão de que esses organismos deveriam, de alguma forma, ter percebido que o sorriso e o nome que eu tinha escrito eram "especiais". A luta entre eles me perturbava, e por isso eu decidi criar uma enorme cadeia de montanhas através de erupções vulcânicas para separar os dois grupos.
  À esta altura, as mudanças foram acontecendo rápido, em comparação com antes. Enquanto antes eu tinha que passar uma noite de sono para ver tribos evoluírem na minha simulação, agora enquanto eu estava comendo ou tomando banho, eu começava a notar os homens da tribo usarem diferentes estilos de roupas, ou terem mudado o seu tipo de habitação.
  Seus números também foram aumentando continuamente. Em algum momento, eu observei as criaturas começaram a fazer seus próprios símbolos no chão, e não apenas a copiarem o meu. A maioria dos símbolos parecia aleatória e ininteligível para mim, mas um se destacou.
  Os organismos havia criado um símbolo que lhes representava. Um pequeno círculo, com um quadrado abaixo dele. Dentro do quadrado, um ponto pode ser encontrada no centro. Isso foi feito para simbolizar os órgãos visuais da criatura, como a criatura tinha dois órgãos visuais, uma na parte da frente de seu corpo, e um nas costas. No quadrado, outros órgãos sensoriais e reprodutivos foram simbolizados.
  Junto ao círculo no topo do quadrado pode ser visto algo parecido com um desenho de um garfo. Dois destes garfos tinham sido pintados na direção oposta. E ao lado de onde o "smiley" podia ser visto.
  Eu percebi uma coisa. Eles não estavam se comunicando uns com os outros. Eles estavam tentando se comunicar com algo "lá fora". Minha intromissão em sua paisagem, de alguma forma fez eles perceberem que algo poderoso estava lá fora, capaz de mudar o seu mundo.
  Gostaria de saber, se os símbolos como Stonehenge e as pirâmides em meu próprio mundo, poderiam ser sinais de povos primitivos que tentavam fazer a mesma coisa. Implorando seu criador ou supervisor para iniciar o contato com eles. No entanto, uma coisa era inegável até agora. Estas criaturas percebiam que havia algo lá fora.
  Eu me perguntei por muito tempo. Será que eu tinha a responsabilidade de iniciar o contato com algo que não é real? Ou são essas criaturas reais de uma maneira diferente? Pode algo ser real, apenas por ser capaz de ter um conceito de si mesmo? E mesmo se eles são reais, isso significa que eles vão estar melhor comigo iniciando um contato com eles? Devo mudar minha simulação, para garantir-lhes a felicidade permanente? E é mesmo possível para mim fazer uma coisa dessas?
  Eu não quis confirmar a minha existência para eles, mas eu queria ser capaz de me comunicar com eles. Eu decidi programar um "profeta". Um organismo que se parece com eles, e não poderia ser provado por eles ser diferente de si mesmos, e seria totalmente controlado por mim.
  Eu deixei-o nascer em uma posição de poder, como o filho de um líder. Eu decidi dar o exemplo, e procurei ensinar a essas criaturas a nossa língua, para que eu pudesse me comunicar com eles. Como profeta, eu instruí-los de que o Português é a língua que poderiam usar para se comunicar com o "Grandioso". Eles não tinham como ter certeza se era verdade ou não.
  Eu não tinha me decidido ainda se eu iria me revelar ou não. Mas eu queria ser capaz de entender o que eles queriam me dizer. Em poucas gerações. Todos falavam minha língua.
E, rapidamente, os sinais começaram a surgir no terreno em Português.
"NOS GUIE" "MOSTRE SUA GRANDEZA" "NOS AJUDE"
E, em tempos de doença ou fome ou miséria geral:
"NOS DÊ ALIMENTO" "NOS MOSTRE UM MILAGRE" "ACABE COM O NOSSO SOFRIMENTO"
  Eu decidi que eu não poderia manter um mundo com tanto sofrimento como surgiu na simulação sem intervir. Por que eu iria aceitar um mundo com mortes, estupros e assassinatos, se eu poderia fazer sem tudo isso?
  Eu implementei correções que foram graduais, de modo que não poderiam ser provadas milagrosas. Assassinato e estupro, ao longo dos anos se tornaram mais raros, e assim como a morte em uma idade jovem.
  Achei que não iriam notar se a mudança ocorresse ao longo de gerações, mas eles notaram.
"OBRIGADO"
"QUE TODAS AS BENÇÃOS ESTEJAM SOBRE O MAIOR"
"NÓS AMAMOS VOCÊ"
E, o que mais me partiu o coração:
"VOLTE PARA NÓS"
  Lágrimas correram pelo meu rosto. Há algo lá. E eles sabem que eu estou aqui, capaz de contatá-los, mas sem vontade de fazê-lo por medo do que eu criei.
  Mas, eu senti que tinha uma responsabilidade. E assim, eu carreguei o personagem que eu tinha criado de novo, e fui para o rei deles, pedindo para falar com todos os seus homens mais sábios. Mas, desta vez, eu fui descreditado.
"Você é o número 1341 afirmando ser um avatar do maior de todos. Se você é ele, eu oro para o seu perdão, mas por favor, mostre-nos um sinal, antes de exigir de mim para reunir todos os nossos homens mais sábios."
  E assim, eu hesitei, mas respondi.
"Amanhã haverá mais dois meteoros, caindo em uma ilha deserta no mar, no mesmo dia. E quando os virem, não duvidarão mais e perceberão que eu voltei para consertar o mundo quebrado que eu criei."
  E assim eu sai do meu avatar, e progredi a simulação até que o dia seguinte fosse alcançado, e joguei dois meteoros na ilha deserta, atrás do continente, onde milhares de pessoas se reuniram para assistir se um sinal seria dado.
  Após a descida dos meteoros, foram realizadas celebrações. Todos os organismos sensíveis reunidos em torno da pequena casa onde eu tinha deslogado meu avatar, e se deitaram no chão, em aparente culto ao homem que foi visto pela última vez lá, e com medo de chegar perto.
  Eu não sei quem estava com mais medo agora, eu ou eles. Eu carreguei meu avatar de novo, e sai da casa. As criaturas continuaram a se prostrar no chão, em silêncio absoluto. É como se eles se sentissem indignos de falar.
"Deixe o seu homem mais sábio levantar-se." Eu disse a eles.
  E pôs-se de pé uma dessas criaturas de aparência bizarra.
"Obrigado por ter vindo de volta. Agora nos diga, você tem quaisquer pedidos de nós?"
  Eu hesitei, antes de dizer: "Não há nada que você pode fazer por mim que me agrade, mas peço que vocês sejam bons uns com os outros, e entrem em contato comigo contando seus desejos e medos."
  A criatura respondeu: "Nós sabemos que você vem de um mundo diferente, e estamos com medo. Nós entendemos o quão vulneráveis somos, e como nossa experiência é incompleta. Por favor, permita-nos acompanhá-lo para o mundo em que criou o nosso mundo."
Comecei a chorar atrás do meu computador, quando eu respondi "Eu não sei como."
  A criatura respondeu: "Em risco de ofendê-lo, por favor, entenda a gravidade da nossa situação por viver em um mundo que está incompleto, que está em constante risco de desaparecer para sempre, para nunca mais ser visto novamente. Sem que sequer, nós tomemos consciência de que o fim chegou. "
  Eu percebi que eles eram incapazes de compreender que eu só tinha o poder absoluto dentro de seu mundo e não fora dele. Eles também não sabiam que o meu conhecimento de seu mundo era limitado. Posso tê-los criado através de leis simples, mas essas leis simples deram lugar a uma realidade própria, que era mais complexa do que eu podia compreender.
  Eu respondi novamente "Eu só tenho o poder em seu mundo. No meu mundo eu não tenho poder, e por isso não posso levá-lo lá, porque meu mundo não está sob meu controle. E eu também não entendo o mundo que eu criei. Eu não sei o que é melhor para vocês. Só você sabe, e você tem que me informar o que você quer. "
  E o homem esperou por um momento. Eu estava a ponto de pensar que eles iam parar de se comunicar comigo, ao que seu homem mais sábio respondeu:
"Você criou um mundo que está incompleto, com criaturas que não podem escapar, e você não tem poder para salvá-los. Eles estão completamente presos, e eles não têm poder. Estamos completamente à sua mercê, e por isso pedimos do fundo de nossos corações:
Nos dê fim. "
  Até agora eu estava chorando, como eu estava confuso e me pediram para fazer o impossível. Minha própria criação estava me pedindo para matá-la.
  Foi então que notei as luzes piscando no meu quarto, antes de meu computador desligar de repente. Eu gritei. Ao tentar ligar meu computador novamente, eu notei que não estava funcionando. Liguei para a empresa de energia, que me disse que devido a um acidente, uma onda de energia tinha viajado através da grade. Eles me prometeram que iriam me pagar por qualquer dano causado.
  Eu desliguei e fiquei pensando. A coincidência de que acabara de acontecer era grande demais para ser imaginação. E eu me perguntava. Se essas criaturas estavam à mercê de um criador confuso, poderia se dizer o mesmo de mim? E foi assim, que o meu criador me impediu de repetir o seu próprio erro?





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