sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Conto: O Inquilino

 Essa história foi tirada de um diário que achei no quarto de meus avós. Eu o adaptei para os tempos atuais e adaptei também o idioma, pois os Rachadel são franceses, o diário pertencia a Arnoldo Rachadel, do ano de 1912, pelo o que diz meu avô...

 Devem estar pensando que essa é alguma história em que a pessoa entra em minha casa e sai matando todo mundo, mas não. Eu escrevi nesse diário porque eu sobrevivi neste mundo para contar... vou começar contando a história do assassino.
  Tudo começou no orfanato onde ele morava, no México. Seus pais morreram quando ele tinha 4 anos de idade. Sem parentes que pudessem cuidar dele, foi levado à um orfanato. Lá, nos seus primeiros dias, não foi fácil ver os outros garotos todos felizes brincando e ele sozinho. Na sua segunda semana, fez amizade com um garoto um pouco mais velho, se sentiu bem vendo que o garoto o protegia dos outros garotos encrenqueiros. A comida do local era horrível, às quintas-feiras eles serviam olho de cabra. No começo ele quase vomitava para comer, mas depois foi pegando gosto pela iguaria, e assim os dias foram se passando.
   No primeiro ano lá com seu novo amigo, ele não sentiu medo de mais nada, pois seu amigo era quase um irmão para ele, mas isso tudo iria mudar quando ele completasse os seus 10 anos. O garoto começou a ser torturado e abusado por alguns funcionários do orfanato, nem seu amigo podia lhe ajudar mais quanto à isso. Foi o que fez o demônio que havia dentro dele acordar. Alguns anos depois, aos seus 13 anos, no dia do aniversário de uma criança do orfanato, ele encontrou em quem ele poderia descontar sua raiva e ressentimento. O seu 'quase' irmão.
  Entrou no banheiro, e com um soco quebrou o espelho, pegou um dos maiores estilhaços que achou no chão. Mesmo com sua mão sangrando, segurou-o como se fosse uma faca normal. ele não sentia mais dor.
 Quando seu amigo ouviu o barulho, entrou para ver o que havia acontecido, mas ele nem teve tempo de reagir, o estilhaço já estava enfiado no pescoço do garoto. Ele havia matado quem outrora era o seu protetor, mas hoje já não era mais capaz de protegê-lo de seus algozes. Isso despertou uma fúria incontrolável contra seu amigo.
   Quando os supervisores perceberam a falta dos dois garotos já era tarde demais, o banheiro estava cheio de sangue, o garoto com a cabeça enfiada na privada. O sangue escorria pelo piso branco-encardido do banheiro. E o pequeno ria descontroladamente, com um sorriso diferente... macabro. Em sua mão esquerda o estilhaço do espelho, e na direita um dos olhos de seu amigo. E o outro? Ele estava com ele na boca.

  Depois desse acontecimento, ele acabou sendo internado em um sanatório. Não conseguiam compreender tamanha crueldade em uma criança nessa idade, a única resposta que encontravam era insanidade. Então, ele foi levado à salvo dos seus antigos torturadores, mas sempre haviam mais deles, por onde quer que ele fosse. Talvez fosse seu destino... E sua vontade de matar só aumentava.
  Passaram-se 4 anos que ele estava nesse lugar, aparentemente sem incomodar ninguém, até aquela hora. Sim, foi naquela hora. A hora do remédio. Poderia parecer um dia comum na rotina do sanatório, mas não dessa vez..
  A enfermeira levou até ele sua dose de anti-psicóticos da manhã, mas havia algo de diferente dessa vez. Quando ele olhou para a mão da enfermeira pode ver o seu reflexo perturbado no copo. Não era um copo de plástico dessa vez. Erro deles. Com uma mordida, ele quebrou o copo. Em seguida, nem mesmo a camisa de força o conteve de enfiar o caco de vidro na garganta da pobre enfermeira. Ela já estava caída no chão agonizando quando os seguranças chegaram. Dessa vez alguns funcionários do sanatório que costumavam usa-lo como saco de pancada, sabendo do histórico do garoto, resolveram matá-lo antes que ele se tornasse mais perigoso e talvez vitimasse eles mesmos. Esse foi o erro fatal. Ao tentarem mata-lo na surdina, acabaram sendo mortos e o garoto escapou. O gosto dos olhos deles teve um sabor especial para o garoto.
  Ninguém conseguiu localizar ele. Parecia ter desaparecido no vento. Mais um tempo se passou, e para o azar meu e de meu amigo, nós acabamos o encontrando ele...

 Semana passada, 2 anos após a fuga do sanatório, meu amigo disse que tinha uma pessoa nova morando no apartamento ao lado, era um garoto de 19 anos, bem legal, gente boa, era o que pensávamos. Foi eu, ele e a irmã dele dar as boas vindas para o novo inquilino. Ele usava óculos fundo de garrafa, tinha umas cicatrizes no lábio, jeito meio estranho, mas muito simpático. Seu nome era Juan. Juan Valdez.
  Então, eu e meu amigo, decidimos convida-lo para jogar bola. Não suspeitávamos de sua integridade naquele momento. Nos divertimos e tudo pareceu correr bem. Por enquanto.
  Outro dia, voltando para casa, vimos um corpo cair do alto. Uma multidão se juntou fora do condomínio para ver. Era uma velha que tinha se jogado do 4° andar do prédio, dizem que ela era louca e havia se suicidado. Mas havia algo estranho. Ao olhar para o alto, na varanda do apartamento dela, tive quase certeza de ver um reflexo de óculos. Não falei nada, mais suspeitei daquilo. Fui ver se o cara novo estava em casa, mas por coincidência ele não estava lá. Então minhas suspeitas aumentaram quando, escondido, vi ele descer as escadas, vindo lá de cima. Parecia haver sujeira de sangue em seus braços e camisa... e na boca. Seria impressão ou paranoia minha?
  Eu não falei nada para ninguém. Deixei de lado aquilo e fui para casa descansar. Alguns meses se passaram, e eu fui me esquecendo, até que outra morte ocorreu. O delegado responsável pela investigação do caso da velha senhora foi encontrado morto.O incidente com a velha, apesar de ter sido alegado um suicídio, foi uma história mal contada. O corpo estava  sem os olhos, e o laudo da autópsia apontou indícios de que foram arrancados antes dela ter sido jogada. Então, o delegado regional resolveu investigar o caso.
  Haviam tiros e marcas de facada no pescoço do delegado, e um detalhe estranho: ele estava sem seus globos oculares. A mulher dele e suas filhas foram mortas a facadas e também estavam sem os olhos.
  Então eu resolvi contar à polícia minhas suspeitas sobre o cara novo. Quando fui avisar a policia, vi que ele também estava lá na delegacia, estava denunciando outra pessoa como o assassino. Ele culpou o pai do meu amigo, que tinha uma arma em casa. A policia confirmou que ele tinha uma arma do mesmo calibre das balas que mataram o delegado. O homem acabou sendo preso acusado de todas aquelas mortes. As pessoas de lá ficaram horrorizadas com o caso.
  O episódio passou, meu amigo ainda frustrado com a acusação do pai, convidou-me para passar uma noite na casa dele enquanto meus pais estavam viajando. Eu aceitei, passar um tempo com ele poderia ajudar a melhorar as coisas para ele. Mas acho que não foi bem assim.
  Naquela tarde, jogamos bola e assistimos filmes. Até chegar a hora de dormir, eu achei que ia dormir bem dessa vez, mas errei de novo.

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Autor: Lucas Rachadel
Revisão: Fernando Bonvento





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