terça-feira, 20 de agosto de 2013

Conto: O Inquilino PARTE FINAL

  Parte final do conto: "O Inquilino". Se você ainda não leu a primeira parte, leia clicando AQUI; e fique por dentro do que acontecerá à seguir:


  Naquela Madrugada, acordei com uns barulhos estranhos, levantei do colchão meio sonolento e desorientado. Havia luz vindo de uma porta entreaberta. Era o quarto do meu amigo, Heitor. Resolvi dar uma olhada, pois era caminho da cozinha e minha garganta estava seca. Passei olhando de relance para o lado e paralisei ao passar pela porta. Seria impressão minha ou...
  Voltei para trás e olhei através do vão da porta. Não era coisa de minha cabeça, senti um choque por dentro; Heitor estava jogado na cama com a cabeça para fora, encarando a porta... com aquela face sem olhos. Acho que nunca vou esquecer essa cena. Ouvi um barulho vindo da cozinha. Rosa? Me lembrei da irmã de Heitor. Estaria ela bem? Saí correndo em direção à cozinha.
  Havia um homem de pé na cozinha, parado de costas para mim. A manga de sua camisa social branca estava suja de vermelho. Era sangue. Minha primeira reação foi olhar rápido para os lados procurando algo para me defender dele.
  Quando ele se virou em minha direção, minhas suspeitas se confirmaram. Era Juan Valdez. Estávamos morando ao lado de um assassino. Eu só consegui gaguejar: "Vo-você". Ele sorriu para mim, então pude perceber que ele estava mastigando alguma coisa, sua boca estava suja de sangue. Ele esticou a mão direita em minha direção e abriu-a. Havia um olho em sua mão. Foi aí que ele falou algo que me deixou sem reação:
"Você quer?" - Ele estava me oferecendo o olho de meu melhor amigo para comer. Qual o nível de insanidade desse cara?
  Eu não podia ver seus olhos, aqueles malditos óculos de fundo de garrafa... só podia ver o brilho do reflexo da luz neles. E ele continuava apenas a me encarar e a mastigar o olho de meu amigo. Maldito.
  Tomei coragem e peguei um enfeite de porcelana que estava ao meu lado e joguei em sua direção. Ele apenas desviou inclinando a cabeça para o lado. Engraçado como a gente sempre sonha em ser um herói, mas quando chega na hora só consegue ter reações ridículas e ineficazes.
  Ouvi outro barulho vindo por trás, no corredor. Seria um cúmplice? Não. Olhei rapidamente para trás, era Rosa, estava esfregando uma de suas mãos no olho, vestindo uma camisola... estava linda. Mas logo sua reação mudou ao perceber Juan na cozinha.
"O que você está fazendo aí?" - Ele não respondeu, apenas começou a rir freneticamente.
"Sai daqui, Rosa, fuja" - Eu disse.
"Quem tem que sair daqui é esse maldito. Por culpa dele o meu pai está preso" - Disse ela.
  Foi então que a ficha dela caiu. A roupa suja de sangue, sua boca suja também, uma faca suja de sangue em cima da mesa da cozinha. Ela só teve uma reação.
"Heitor!" - E saiu correndo para trás em direção ao quarto dele. Ao avistar a cena, ela cobriu o rosto com as mãos e soltou um grito agudo. Ela entrou em choque, encostou as costas na parede atrás dela e foi escorregando até o chão. Ao fazer isso, sua camisola levantou, deixando sua calcinha à mostra.
  Eu precisava tomar alguma atitude, ou seríamos os próximos a morrer. Como ele estava desarmado, corri em sua direção antes que ele pudesse pegar a faca em cima da mesa; me joguei em cima dele, derrubando-o no chão.
  Ele me segurou no meu pescoço com muita força, eu quase não conseguia respirar. Pensei que essa poderia ser a linha final para mim. Em breve estaria ali também, morto sem os olhos. Aquele filho da p*ta ia comer os meus olhos. Essa ideia repulsiva me fez abrir os olhos e criar força. Havia Rosa também, eu não poderia deixa-la morrer.
  Fiz a primeira coisa que me passou pela cabeça. Levei meu braço para cima e enfiei o meu dedão com toda força em um de seus olhos. Achei que ele ia me soltar, mas me enganei. Ele apenas soltava aquela gargalhada horrível. Então eu tentei rolar para o lado, em uma desesperada tentativa inútil de me livrar dele. Eu precisava fazer algo antes que perdesse as forças. Eu estava ficando cada vez mais sufocado.
 Pensei ter dado certo, pois o braço dele se afrouxou em volta de meu pescoço e pude me desvencilhar dele. Não era por minha causa. Lá estava Rosa, de pé ao nosso lado com a faca que estava em cima da mesa em sua mão. Saia muito sangue do pescoço de Valdez. Ele estava encostado no balcão... com os braços esticados, e o rosto caído pro lado. Parecia estar morto. Mesmo assim, ainda parecia sorrir. Seus olhos estavam abertos, um deles estava desfigurado por minha causa. Acho que estava realmente morto.
  Eu me levantei depressa e fui ao encontro de Rosa e a abracei. Ela deixou a faca que estava segurando cair no chão. Ela estava sem reação. Também pudera, a coitada viu aquela cena do irmão morto no quarto sem os olhos, até eu fiquei chocado com a cena macabra.
  Olhei para trás para ter certeza de que ele estava morto. Estava do mesmo jeito.
"Vamos Rosa, ponha alguma roupa e venha comigo"
  Saímos de lá e fomos pedir ajuda. Apesar de tudo, sentia um alívio de ter escapado das garras daquele maldito louco. Agora o pai de Rosa poderia ser inocentado, a única cosa que me doía era perder meu melhor amigo. Isso nada poderia substituir.
  Saímos de lá e pedimos ajuda para os vizinhos. Logo a polícia estava chegando ao local. Graças a Deus. Aquele pesadelo estaria tendo um ponto final. Os policiais entraram depressa no apartamento, quando eles saíram de lá senti outro choque.
"Senhor, há apenas um corpo em um dos quartos" - disse o policial ao seu superior que estava lá.
  Como assim só um corpo? Entrei correndo para dentro do apartamento em direção à cozinha
"Espere, você não pode entrar aí" - disse um policial para mim, mas não dei ouvidos.
Lá estava no chão da cozinha. Uma poça de sangue e aqueles malditos óculos de fundo de garrafa no chão, apenas. Nem um sinal da presença de Juan Valdez. Por onde ele teria fugido? Como ele sobreviveu?

  Após o incidente, houve um grande tumulto no condomínio, foi manchete de diversos jornais do país. A pior parte foi explicar na delegacia o ocorrido. Após o incidente, Rosa teve uma sequela psicológica, ela ficou muda por ter visto o irmão naquele estado. Também pudera... Devido à isso, as atenções caíram em cima de mim. Fiquei com muito medo de ser acusado injustamente por alguma coisa, mas meus pais voltaram de viagem imediatamente após saberem do ocorrido, e tudo acabou sendo esclarecido, exceto uma coisa: o paradeiro de Juan Valdez.
  Com o escândalo, acabou vindo à tona a história dele, o seu histórico no orfanato, o incidente no sanatório e tudo mais. Quando eu soube, fiquei com mais medo ainda dele. Meus pais, também chocados, decidiram se mudar de lá. Acho que foi melhor assim. Pena que depois disso perdi o contato com Rosa.

  Meses se passaram, tudo pareceu entrar nos eixos. Mas de uns dias para cá, não sei se é paranoia minha, mas sinto que onde quer que eu vá, tem alguém me vigiando. Tenho muito medo de que seja Juan, querendo se vingar de mim. Tenho que tomar calmantes todos os dias. Sinto que estou ficando cada vez mais encurralado. Por temer a minha vida, eu decidi deixar esse relato escrito em meu diário. Espero que tudo não passe de coisa de minha cabeça, e Juan já esteja muito longe ou de preferência morto.

                                                                                                                                                  Arnoldo.



Autor: Lucas Rachadel
Revisão: Fernando Bonvento





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