domingo, 11 de agosto de 2013

Conto: Eles Vêm do Esgoto

contos terror, cômico, histórias
  Existem coisas estranhas que acontecem com várias pessoas, em diversos lugares. As vezes acontece com um amigo seu ou com um parente. Outras vezes acontece com você. Coisas essas, que muitas vezes não conseguimos encontrar explicação que nos pareça plausível ou que nos conforme. Agora imagine: fantasmas saindo do esgoto?!


  Meu nome é Henrique, mas meus amigos me chamam de Castro. O que eu vou contar me aconteceu à uns 3 anos. Na época, faltavam 2 meses para o meu aniversário de 18 anos. Estávamos acabando de organizar a mudança na casa nova - tudo bem que eu gostava da antiga, mas eu estava feliz com essa casa também, pois meu quarto novo tinha um banheiro próprio, isso facilita quando você acorda apertado para ir ao banheiro no meio da noite. Sabe como é.
  A vizinhança nova em geral até que era boa. De um lado, um casal de idosos e quatro netas morando junto; do outro lado, mais 5 casas. As famílias até que eram bacanas... O problema era em frente. Havia uma casa muito estranha que morava uma mulher mais estranha ainda. Ninguém da rua gostava muito dela, mas por ela ter herdado a casa e não estar lá de aluguel nem nada, todos tinham de tolera-la. Todo dia de noite paravam uns tipos estranhos na frente, era muita gente entrando e saindo de lá. Uns diziam que ela vendia droga, outros diziam que a mulher prostituía as filhas, mas na real, eu não queria nem saber, só queria arrumar meu novo quarto, instalar-me confortavelmente e voltar à rotina de rolê com a galera.
  Já haviam se passado 3 semanas morando na nova casa e até essa altura tudo corria normalmente, salvo os dias em que baixava a polícia na casa em frente e se ouviam uns barracos de madrugada. Ah, tinha também a velha ao lado que tinha alguma doença, sei la o que era, e fumava maconha "medicinalmente" para controlar. Não preciso nem falar que a fumaça vinha toda justamente para a janela do meu quarto. Mesmo quando estava fechada, não sei como raios aquela porcaria entrava. E a maldita acordava 5 da madrugada para fumar o cachimbo dela, eu acordava e pensava estar na Jamaica. Tirando esses pormenores até que estava sendo agradável morar ali. Ficava mais perto do centro da cidade, era melhor para mim quando voltava das baladas de madrugada à pé.
  Mas, quando tudo parecia normal em minha vida na medida do possível, foi aí que a "merda" desceu pelo cano.
  Um dia, por volta das 20hrs, voltando para casa de um aniversário de uma amiga, eu encontrei em frente ao portão de casa, a mulher estranha que morava em frente, o nome dela eu não sei, mas sei que o povo da rua chamava ela de cafetina. Ela estava deixando alguma coisa bem no pé do portão. Quando eu fui chegando, ela virou e me viu, então saiu correndo rumo à sua casa. Era uma mulher muito estranha mesmo, com a perna cheia de varizes, o cabelo claro como palha e ressecado, a pele vermelha, igual quando um alemão vai para a praia. Muito esquisitona mesmo.
  Cheguei no portão e olhei para baixo para ver o que ela estava fazendo lá. Havia um lance muito tosco. Tinha dois limões e pepino no meio e um saquinho sujo do lado. Estava parecendo um pênis vegetal. Ao ver comecei a rir e ao mesmo tempo fiquei meio preocupado, será que a mulher era uma macumbeira ou algo do tipo? Sei lá, eu não era muito supersticioso mas não queria saber muito dessas coisas não.
  Eu chutei aquelas coisas para a rua em direção à casa dela. Eu pude ver ela me observando pela janela. Haviam 2 rapazes e uma garota em frente a casa dela bebendo e conversando. Quando os limões chegaram lá rolando, eles apenas observaram e depois voltaram a conversar. Era só o que me falava agora, essa louca colocando coisas em frente à minha casa, eu hein.
  Entrei para casa e subi para o meu quarto trocar de roupa e pôr algo mais confortável. Quando estava me trocando, ouvi o interfone tocar. Coloquei a camisa rapidamente e fui atender. Era a cafetina, na maior cara de pau no meu portão. Fui ver o que ela queria, talvez se explicar. Cheguei no portão e ela disse:
-Você por um acaso tem algum gato? - essa eu não entendi.
-Não, não tenho não - respondi.
-É que há um buraco de esgoto no fundo do meu quintal, antes saíam ratos, mas eu pus uma grade. Agora não param de sair baratas - disparou falar e cuspir -  Já cansei de reclamar com a prefeitura e eles não fazem nada.
  Que nojo. E onde que o gato entra nessa história? O que ela estava querendo comigo? Primeiro põe um negócio muito suspeito na porta de minha casa, agora vem com papo estranho.
-E onde entra a parte do gato? - perguntei.
-Eu tenho um cachorro mas ele é enjoado, não come mais as baratas que saem, eu queria um gato para por ele lá.
-Olha dona, eu não tenho gato não e também não acredito que um gato vá querer comer baratas. Se me dá licença... - melhor não dar papo para esse tipo de gente.
  Ela apenas me encarou nos olhos por dois segundos e virou-se rumo ao outro lado da rua.
-Tchau cafetina. - debochei meio baixinho, mas acho que ela ouviu algo, pois deu uma leve olhada para trás.
  Eu sei que eu sou debochado, meus pais reprovam esse tipo de atitude minha, mas eles estavam fora de casa mesmo. Hehe. Contudo, acho que foi um erro meu ter mexido com essa mulher. Uma leve suspeita apenas.
  Já devia ser por volta de 1h e meia da manhã e eu estava sem sono. A linha de telefone já havia sido instalada mas ainda não tinha chegado o modem da banda larga. Então, sem internet, só me restava ficar no celular; um iPhone (que eu havia ganhado de presente de aniversário adiantado) e jogar joguinhos nele.
 Estava eu lá deitado e jogando, quando ouço um barulho no telhado, como se estivesse alguém andando em cima.
-Mas que porcaria é essa? - falei.
  Abri a porta do quarto e olhei para o corredor. Meus pais estavam dormindo, a porta estava trancada. Voltei para o meu quarto e fiquei em silêncio para ver se ouvia algo mais. Nem um Piu. Voltei a mexer no celular e pensei comigo mesmo: "Deve ser um gato". Se bem que pelo barulho parecia mais ser um tigre.
  Foi só eu voltar a mexer no celular que ouvi algo como passos pesados acima de mim novamente. Droga.
  Na falta de um taco de beisebol, catei um rodo que estava no banheiro. Abri a janela e olhei para cima com todo cuidado. Apenas escuridão. Então peguei o cabo do rodo e dei umas batidas na beirada do telhado. Ouvi um barulho em cima e de repente uma telha escorregou e voou direto para o quintal da velha maconheira. Sorte que não acertou minha cabeça, pensei.
  Imediatamente tirei a cara de fora da janela e a tranquei e fechei a persiana. O que poderia estar lá em cima? Será um bicho ou algum ladrão?
  Meu coração começava a bater mais forte, não tanto por medo, mas por adrenalina. Fui até o quarto dos meus pais com o rodo na mão e bati na porta. Como não atenderam, bati uma segunda e terceira vez. Meu pai abriu a porta com um olho fechado e outro meio aberto. Contei para ele sobre os barulhos no teto.
-Deve ser um gambá - ele disse.
  Gambá? Acho que meu pai ainda pensa que está morando no interiorzão onde ele nasceu. Fala sério.
-E se não for? - falei.
-Não se preocupe, a porta é bem resistente e as janelas lá embaixo têm grades. Vou voltar a dormir, amanhã tenho que acordar cedo.
  Ótimo. Por que os pais têm essa mania de nunca dar ouvidos aos filhos? Até parece aqueles filmes de terror em que o mocinho tenta avisar para todo mundo sobre o monstro mas ninguém acredita nele, só acreditam quando estão sendo engolidos e já é tarde demais.
  Mas e se for pior que um monstro? e se for um ladrão querendo roubar meu celular novo? Nem morto vou deixar ninguém levar nada meu. Voltei para o meu quarto e abri a janela, deixando apenas o vidro fechado e espiei para fora. Nada, apenas via abaixo da janela o meu quintal, à direita as luzes da rua e a frente o telhado e o quintal do vizinho. Meu quarto ficava no segundo andar.
  Enquanto eu me virava para voltar à cama, um barulho de algo descendo arranhando a parede, um som abafado do lado de fora chamou minha atenção. Meu coração voltou a bater rápido.
  Olhei para fora para o lado que veio o som e nada. Olhei para baixo também nada. Tomei coragem e abri o vidro. Uma brisa fresca bateu em meu rosto e entrou pelo quarto. Nem os grilos que ficavam no gramado do quintal estavam cantando. Um silêncio atipicamente ensurdecedor estava presente. Me debrucei na janela e refleti que devia ser bobagem, apesar de tudo, aquele era um bairro tranquilo, sem queixas de furtos nem nada. Por isso nos mudamos para lá. Foi quando algo chamou minha atenção. Embaixo havia uma arvorezinha no quintal de casa e parecia haver algo lá, com um par de olhos de gato brilhando. Forcei a vista e estiquei o pescoço para baixo para tentar entender o que era realmente. Fiquei encarando aqueles olhos brilhantes por quase um minuto. Provável que era algum gato obeso que estava destruindo o meu telhado.
  Então o "gato" fez um barulho muito estranho, como um grunhido grave e saiu rápido da moita. Só deu para ver um vulto grande saindo de lá em direção mais ao fundo do quintal, que estava escuro. E não parecia ser um gato. A silhueta era do tamanho da de uma pessoa, só que saiu de lá incrivelmente rápido.
  Quando vi aquilo me assustei e saí rapidamente para trás, batendo minha orelha esquerda na beirada da janela. Doeu muito, ela ficou ardendo e muito quente.
  Tranquei rapidamente a janela e a porta do meu quarto. Havia um copo de água cheio em cima da cômoda e havia um banheiro de uso só meu lá. Não precisaria sair até que amanhecesse o dia, creio eu. Melhor ficar assim. Não é medo, é cautela. Seja lá o que for, deixa ir embora.
  Deitei na cama e fiquei um tempo pensando sobre o assunto, até meus pensamentos começaram a vagar e começar a pegar no sono. Não percebi quando que foi, mas acabei apagando.
  Acordei ouvindo uns barulhos estranhos, meio que ecos. A minha primeira reação foi pegar o celular e olhar as horas. Exatamente 3:33. Engraçado, se tivesse no Twitter iria postar as horas.
  Continuei ouvindo o barulho. Muito estranho, parecia um barulho grave e com ecos. Levantei e fui andando tentando descobrir de onde vinha. Não sei porque mas ele parecia estar mais alto no rumo do meu banheiro. A porta dele estava entreaberta deixando a luz acesa passar por um vão. Gosto de dormir assim, luz do quarto apagada e a luz do banheiro acesa, deixando só um pouco de luz entrar.
 Chegando ao meu banheiro privativo, os barulhos se tornaram mais perceptíveis. Era uma espécie de "brom", "brom", "brom"... que ficava se repetindo, parecia um barulho vindo de dentro de um cano. Olhei para a pia, mais especificamente para o buraco do ralo. O Barulho saía mais forte de lá. Fui chegando o rosto perto para ouvir, fui abaixando o ouvido em direção da pia. Quando cheguei o rosto no nível da pia o barulho pareceu parar.
  Franzi a testa e levantei o rosto para cima novamente. Me olhei no espelho. O meu cabelo estava um caos. Liguei a torneira e fiz uma concha com as mãos segurando a água para lavar o rosto. Fiz isso três vezes, quando então notei que a água estava subindo na pia e quase transbordando. Desliguei a torneira e fiquei olhando a água descer lentamente. Quando estava quase acabando, subiu umas bolhas na água e junto com elas um cheiro horrível. Tapei meu nariz e me afastei.
- Que cheiro horrível - escapou meu pensamento.
  O cheiro parecia de sardinha podre misturado com alguma coisa morta. Catei o tampão da pia que estava na beirada da janelinha e tapei a pia. Depois espirrei no banheiro um pouco de um perfume meu que não usava mais, na tentativa de amenizar aquele cheiro tenebroso.
  Quando abaixaram-se as gotículas do perfume que estavam em suspensão no banheiro e faziam meu olho arder, eu entrei novamente para conferir se o cheiro havia passado. Foi quando um "blup" bem alto saiu da privada. Tomei um susto. Com esse barulho, desceu pela metade o nível da água que fica parada na privada e ficou la balançando de um lado para o outro. Sorte que dessa vez não veio aquele cheiro desagradável, sentia apenas o cheiro forte do perfume.
-Essa noite parece que não acaba, só quero dormir - me lamentei.
  Voltei para a cama, parecia que tinha ficado preso no meu nariz aquele cheiro de sardinha enlatada no inferno. Muito ruim. A única coisa que me restava era tentar dormir de novo, e foi o que fiz.
  Outra vez o barulho. Dessa vez a preguiça não me deixou levantar. Pus o travesseiro em cima da cabeça para tapar a orelha. Me veio na cabeça a cafetina louca do outro lado da rua. Lembrei dos ratos invadindo o quintal dela. Será que poderiam sair ratos e baratas do meu ralo? Senti um arrepio só de pensar em pernas de baratas andando em mim. Que droga. Decidi me levantar e olhar novamente.
  Fui andando novamente em direção ao banheiro na ponta dos pés. Ao chegar no portal, eu parei e olhei para a pia. O tampão do ralo ainda estava lá. Tudo normal, ao menos era o que parecia, o barulho havia parado.
  Eu já ia me virando para trás rumo ao quarto, quando meus pés travaram no lugar. Tive aquela estranha sensação de estar sendo observado. Parecia um negócio muito estranho atrás do meu pescoço. Com a visão periférica do olho esquerdo tive a impressão de ver um vulto no chão do chuveiro. O vidro do box era turvo e não dava para ver direito o que era. Decidi me virar rapidamente e ir ver do que se tratava.
  Minha intuição dizia o contrário, para não ir, mas a curiosidade venceu. Me virei e fui rapidamente em direção ao box, que ficava à 3 passos a esquerda da porta. Puxei a porta de vidro para a direita abrindo-a e olhei para baixo.
  O que eu vi me fez dar um pulo para trás.
  Parecia uma mão marrom podre saindo do ralo do chuveiro. Quando abri o box, "aquilo" voltou rapidamente para dentro do buraco, deixando a tampa do escoador semiaberta. Meu coração batia forte, quase saindo pela goela. Minhas pernas me traíram; quando eu mais precisei não conseguia correr. Teria eu visto mesmo o que eu pensei ter visto ou seria excesso de sono e imaginação? Talvez uma Aranha de esgoto? Sei lá...
  O cheiro de sardinha podre novamente tomou conta do banheiro.



Clique aqui para ver a PARTE 2:


por Fernando Bonvento





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