domingo, 25 de agosto de 2013

Conto: Eles Vêm do Esgoto parte 3

contos de terro cômico, histórias
  Se você ainda não leu esse conto, comece pela PARTE1, ou então se já leu, veja a PARTE2, e fique por dentro do que vai acontecer à seguir.



  Certo, analisando a situação, estou eu aqui com um cara que está tão ou mais assustado do que eu, e certamente não vai poder fazer nada quanto ao problema. Meus pais estão viajando e só voltam após o final de semana. Aqui fora está começando a ficar frio pra c*ralho e uma hora ou outra, vamos ter que dormir. Se eu dormir dentro de casa corro o risco de ser molestado por uma mão fantasma. Pior não pode ficar, então vou aceitar o conselho do Ruéla.
-Então liga pra ele, vai - falei.
-Ligar que jeito?
-Com um trombone. - sarcasmo on - É claro que com um telefone, um celular, o que for!
-Errrr! eu sei como que liga, lesado. Estou querendo te dizer que ele não tem telefone, ou pelo menos eu não sei qual é.
-Isso é um problema.
-Mas o degas aqui sabe onde ele mora! - falou o Ruéla, batendo no peito.
  Só me faltava essa. Eu já estava relutante em me meter com aquela figura estranha e agora ainda vou ter que ir atrás dele. Droga vezes droga.
-Fica aonde mesmo? - perguntei
-Deixa-me ver... segue aqui, vira ali, desce lá... fica à uns 10 quarteirões daqui.
  Nessa hora pensei muito seriamente em atravessar a rua e forçar aquela velha louca a desfazer essa macumba, vodu ou o que quer que seja, nem que fosse na porrada. Mas é claro que uma pessoa civilizada não poderia fazer isso. Não tenho como provar que era ela a culpada e nem tinha certeza absoluta disso. E outra, se eu fizesse isso correria o risco de ser linchado pela cambada de manos que ficam lá.
-Bom, melhor começar a andar agora. Vou trancar a porta. - falei indo em direção à porta aberta da sala.
-Beleza, eu vou assim mesmo - falou Ruéla esfregando os braços para esquentar-se - não subo lá de volta nem a pau.
-Você que sabe, se esquente andando. - falei.
  Saímos de lá, parece que saiu um peso enorme de minhas costas. O lugar estava com um clima pesadasso, e o pior de tudo é que é justo a minha casa. Eu durmo lá, caramba. Fomos seguindo o caminho, falando bobagens, tentando mudar um pouco o clima focando em outros tipos de assuntos. Eu nunca pensei que podia rolar essas coisas de verdade com alguém.. Será que eu não frequentei muito às missas de domingo? Foi aquela vez que comunguei sem me confessar? Sei lá mano, muitas tretas.
  Estávamos divagando e jogando papo fora quando de repente percebi que estávamos numa quebrada bem estranha. Devia ter uns 3 bares um ao lado do outro, tudo com aqueles tiozões chegados numa cachacinha marota. Um bêbado mijado no chão. Uns cachorros babando ao lado de uma churrasqueira improvisada que soltava um fumação. Maldita fumaça quase me sufoquei com ela, encobria metade da rua, isso poderia causar um acidente. Isso é, se tivesse passando algum carro por ali...
-Ei Ruéla, que raio de lugar que você tá levando a gente? - perguntei quase cochichando, vai que algum maluco de lá ouve e invoca comigo.
-Fica frio, é logo ali - e apontou para o rumo do local.
  No caminho tinha uma tiazona enorme espancando um bêbado. Deve ser o ex-marido dela que gastou o dinheiro da pensão com cachaça ou algo do tipo, haha.
  Finalmente chegamos ao local. Parecia mais um terreno baldio, ou um terreno invadido. A entrada era uma parte arrombada no muro de concreto. Olhei para dentro, tinha um fiat 157 semi-desmanchado em um canto, uma árvore velha sem as folhas, um monte de saibro em outro canto e entulho para todo lado. Mais ao fundo estava a casinha, dava para ver luz acesa na janela, então fomos entrando.
-Aí Castro, demos sorte!
-É, parece que tem gente. - falei.
  Estávamos entrando devagar no local para não tropeçar em nada, quando de repente paralisei, senti meu sangue gelar. Alguma coisa tinha segurado minha perna.
-A mão! - gritei
-Ahhhh! Onde?! - gritou o Ruéla, também.
  Olhei para baixo e o susto passou. Graças a Deus não era a maldita mão, era apenas um bêbado mocosado no quintal do Tiago Saci.
-Você tem uns trocados, moço? - falou o bêbado com uma voz meio rouca pra mim.
-P*rra mano, não faz mais isso - falei - hoje você tá com sorte, toma umas moedas. - o maldito nem me agradeceu. Então, seguimos até o fundo.
-Chama ele lá - falei
  Ruéla começou a bater palmas na frente da porta do casebre. Havia apenas uma luz fraca do lado de fora, com umas mariposas voando em volta e batendo na lâmpada. Quando ele bateu palma pela segunda vez, ouvimos um barulho estranho, parecia um rosnado.
-Ei cara, você ouviu isso? - perguntei
-Sim, de onde veio?
  Nem precisou procurar muito. Tinha um viralata orelhudo saindo das sombras e estava encarando a gente. Tremendo cachorro estranho, conforme ele foi chegando deu para ver melhor.
-Ei Ruéla, torce pra aquilo na boca dele ser sabão.
-P*ta m*rda!
  Maldito cachorro, estava rosnando pra gente com aquela boca espumenta, caindo muita baba, aquilo me embrulhou o estômago. E os olhos, vermelhos que nem olho de cara chapado, parecia o fogo do inferno... ele rosnava sem nem ao menos mexer a mandíbula nem nada, parecia que o rosnado vinha na sua mente por ondas psíquicas! Sinistro.
 -Cara, você é louco. Olha pra onde você trouxe a gente, na minha casa estávamos mais seguros! - falei.
  Nisso a porta à nossa frente se abriu. Primeiro saiu uma tremenda neblina, mas logo saquei o que era; exatamente o mesmo cheiro que vinha na janela do meu quarto às 5 da manhã: era neblina jamaicana!
-Qualé. - Era Tiago Saci.
  Vendo a figura, você já entende o motivo do apelido. Uma carapuça de saci compridona com as cores do reggae, e andava meio manco. O cabelo não dava pra compreender se eram dreads ou falta de shampoo mesmo.
-Ô Saci, dá uma mão aí, teu cachorro tá querendo me morder. - falou Ruéla
-Esse cachorro não é meu não, carinha.
-Droga. - falei. - de quem é então?
-Fica tranquilo, o dono dele tá aqui. - e virou-se para dentro - Chega aí, Jack.
  O Tiago Saci desencostou a barrigona peluda do portal deu espaço para  passar uma figura franzina e baixinha. Eu conheço esse cara, é o Jack da Granja.
  Você deve estar estranhando porque tantos apelidos compostos, Marquinho Ruéla, Tiago Saci, Jack da Granja, mão é? Mas não ligue, é normal aqui por essas bandas, a galera é bizarra, eu acho que estou entre os mais normais. Jack da Granja, segundo o que ouvi falar, tem esse apelido porque ele tinha mania de assaltar o uns galinheiros por aí. Dizem também as más línguas que ele fazia "certas coisas" com as galinhas, mas acho que são apenas boatos, sabe como é, né?
-Jack, fala pro teu cachorro se acalmar aí. Não to querendo ir para o pronto socorro hoje não. - falei.
  Ele ficou apenas me encarando com a boca aberta e os olhos vidrados, paradão. Então o Tiago Saci estalou o dedo na frente da cara dele.
-Passa, réques - ele disse apenas isso. O cachorro recuou 2 passos, parou de rosnar e desapareceu nas sombras, tipo o mestre dos magos. Sinistro.
-Mas aí carinhas, me digam - começou a falar o Saci - o que lhes traz ao meu humilde lar?
-Sabe o que é, Saci - comecei a explicar - estou com um problemão então vou direto ao ponto. Minha casa começou a ser assombrada por uma parada muito sinistra. É mão saindo do ralo, cabeça na privada... tô sabendo que você pode me ajudar.
-Hmmm - pôs a mão no queixo - isso tá com cara de trabalho em cima de você.
-Eu Sabia - exclamou Ruéla.
-Eu senti a vibração! - Continuou o Tiago Saci. - Mas, se você pagar um agradinho pro Sacizão aqui, eu posso te ajudar, afinal temos que sobreviver não é?
-Que tipo de agradinho? - perguntei.
-Vamos ter que comprar os materiais necessários para o trabalho de limpeza da sua residência, carinha!
-Quais seriam? - perguntei
-Vamos chegar ali no bar do gordo e comprar umas 6 garrafas de pinga, 2 quilos de carne e 3 sacos de sal grosso, isso deve resolver.
  Isso está me parecendo mais uma lista de churrasco. Esse cara deve estar querendo filar às minhas custas
-Mas pra quê tudo isso? pra quê carne? Tudo isso de pinga? Sal?!
-Que isso carinha, só tô pedindo uma pinguinha de agrado pra mim, o resto é pro trabalho! O espírito tem fome carinha, se ele não comer a carne, vai acabar te comendo... e o sal, o sal faz milagres com esse tipo de exú, nunca viu sobrenatural não, carinha?
-Vi, vi sim... tudo bem, vai.
   Melhor gastar um pouco de dinheiro do que passar de novo aquele sufoco lá em casa.
-Bora Jack, você vai ser meu assistente nesse trampo. - O cara não respondeu nada, apenas ficou olhando para o Saci com aqueles olhos estáticos, boca meio aberta. Esse cara não deve ter forças nem pra falar de tão desnutrido que está, só pode.
  O Tiago Saci entrou para dentro da casa dele, vestiu uma camisa do flamengo e saiu com a gente. Fomos para um bar ali perto. Quando entramos,  ficou aquele bando de cachaceiro encarando, mas beleza, saímos inteiros de lá. As sacolas das compras sobraram para mim e para o Ruéla carregarmos. O Saci é malandro, só pegou uma garrafa para carregar... carregar no fígado. Ele foi bebendo, o safado. Já o Jack da Granja, acho que ele não aguenta carregar nem o próprio peso, então nem dei nada pra ele carregar.
  O caminho de volta obviamente foi a mesma distância da ida, mas com aquelas figuras ao lado parecia não ter mais fim. Engraçado sentir pressa de chegar em uma casa assombrada, acho que estou ficando meio pirado, só pode. Tiago Saci começou a contar umas histórias sem nexo de woodstock e não sei o que mais. Sei lá se ele é dessa época, o cara é tão acabado que não da pra ter uma noção exata da sua idade, se eu fosse chutar, diria que foi tio do tutancâmon. Agora não sei quem é pior, o Tiago ou o Ruéla, que ficava falando com o Jack da Granja sem parar, e o cara só olhando sem expressão para ele, com os olhos vidrados. Levar essas figuras pra casa, capaz de baixar a polícia lá pensando que virou boca de fumo.
  Chegando em frente de minha casa o Saci começo a fazer umas caretas estranhas.
-Uff! Olha isso aqui ó - Mostrou o braço direito arrepiado, apontando com o dedo indicador e o resto dos dedos segurando a garrafa de cachaça. - Ali em frente o bicho também pega - e apontou pra casa da cafetina louca.
-Você sentiu alguma coisa lá? - perguntei.
-Não. Tá vendo aqueles trecos que parecem filtros do sonho pendurados na varanda?
-Sei. - falei
-É Vodu.
  Só me faltava essa, uma velha voduzenta lá deixando coisas estranhas na porta de casa. Tudo começa a realmente fazer sentido, só pode ser isso. Mas porque ela tava deixando aquelas coisas na porta de casa? Que eu saiba eu não tinha falado nada de mais para ela antes, nem tinha visto ela direito sequer. Estranho, muito estranho.
-Bom, chegamos. Agora o bicho pega. - disse Ruéla. Pela primeira vez o Jack da Granja mudou a expressão, parecia perturbado.
-Ei Jack, porque você anda tão calado assim cara? Tá na nóia? Que eu me lembre você sempre falou bastante. - perguntei.
-Ih, carinha - me interrompeu, o Tiago Saci - Agora ele virou um Zumbi.
-Zumbi?! - Perguntamos eu e o Ruéla ao mesmo tempo.
-É, um Zumbi. - e deu uma bolada na garrafa - Outro dia ele tava tão bêbado que pensou que o cachorro dele fosse uma mulher e acabou beijando ele na boca.
-Eca. - falei. - aquele cachorro louco precisa ser tratado mano, aquilo lá é hidrofobia.
-Pois é, carinha - ele continuou a falar - eu bem que tentei levar ele no pronto socorro, mas o doidinho morre de medo de injeção...
-E o que aconteceu? - perguntei.
-Tive que transformar ele em um zumbi pra não morrer, carinha. Agora ele é meu zumbi de estimação.
-Zumbi como? - perguntou Ruéla - foi infectado com T-Vírus? Hahaha.
-O que é isso carinha? - perguntou o Saci. - Eu fiz um trampo com ervas especiais nele, carinhas!
-Nada não. Esquece.
-Ei, chega de papo, comadres - falei - estou congelando aqui fora, vamos logo. - Se der papo pra esse cara vamos ficar ouvindo coisas bizarras aqui até o amanhecer.
  A casa da cafetina em frente tava bombando de mano na frente, como sempre. Velha miserável, me paga... em uma horas dessas eu podia estar curtindo a festa à fantasia que está rolando no clube, mas não, se eu for pra lá, quando eu voltar cansado vou ter que encarar o mãozinha podre me assombrando, ai não dá.
  Abri o portão da frente, entramos e olhamos para cima em direção ao segundo andar e um trovão cruzou os céus anunciando um possível temporal. Um vento passou balançando os arbustos no quintal. Pareceu até filme. Sinistrasso!
-Mal presságio, carinhas. - falou Tiago Saci. Eu olhei para o rosto de cada um e segui em frente.
  Abri a porta da sala. Todos entramos, estava todo mundo estava em silêncio nesse momento, ouvia-se apenas algumas vozes ao fundo vindo da casa da velha cafetina, o vento estava ficando cada vez mais forte e vez ou outra se ouvia um trovão... cada vez se aproximando mais de nós.
  Acendi a luz e olhei para cada canto. Tudo parecia quieto lá dentro. Fui entrando e deixei as sacolas em cima da mesa da cozinha, seguido pelo Ruéla. Voltei até a sala, e quando eu ia fechar a porta, ouvi um barulho estranho e dei um pulo. Ai percebi de onde vinha o barulho, o maldito cachorro raivoso do Jack da Granja tava dentro do meu quintal. Como que esse bicho surgiu ali? E aquele rosnado dele sem nem ao menos  mexer 1 milímetro da boca. Só podem ser as ondas psíquicas, eu tô ligado!
-P*rra Saci, o cachorro do teu zumbi tá no meu quintal, dá um jeito nisso. - falei
-Esse cão é de alta periculosidade, carinha! - Falou ele - deixa ele quieto.
-Que seja - falei, trancando a porta na cara do cachorro - depois quando vocês saírem por favor tirem essa porcaria de cachorro do meu quintal.
-Castrinho meu chapa, você precisa acalmar as vibrações! - Falou o Saci.
-Eu vou acalmar quando minha casa estiver livre dessa parada louca.
-Ei, Saci. - começou a falar o Ruéla - Dá um chego aqui no banheiro. É onde estava aquele fantasma na privada.
  Fomos todos juntos indo no rumo do banheiro, menos o Jack da Granja zumbificado que ficou parado na cozinha que nem um dois de paus. O Saci foi primeiro, abriu a porta do banheiro e foi até a privada. Ergueu a tampa e tapo o nariz.
-Nossa carinha, você tem um problema sério aqui mesmo, e é de diarreia!
  Cheguei mais perto e olhei bem, a privada estava detonada de tanta m*rda, tinha m*rda espirrada até na parede atrás.
-Caramba Ruéla, que estrago você fez nesse banheiro mano! - falei.
-Deve ter sido aquele lanche - usou como desculpa - estava meio estranho.
-Sei o estranho, desde pequeno você faz isso quando tá nervoso, lembra no jardim de infância? Até interditaram o banheiro. Haha! - O Saci riu junto, com aquela boca faltando metade dos dentes. Ele já estava meio "alto" de tanto tomar cachaça, então vai rir de qualquer coisa.
  Estávamos entretidos com a conversa quando ouvimos um barulho vindo da cozinha. Saímos do banheiro e viramos o corredor para nos deparar com uma cena estranha. O Jack da Granja estava com uma expressão totalmente diferente, seus olhos estavam estalados e estava tremendo.
-Ai Saci, teu zumbi tá com defeito, haha. Tu não deve ter feito o serviço direito, seja lá o que fez com ele. - falou Ruéla.
-Ei, cadê a carne, carinhas? - perguntou saci.
  Foi aí que notamos, em cima da mesa estava só as garrafas de cachaça e o sal grosso.
-Zumbi safado, foi você que pegou? - continuou saci.
-Ei, tá vendo que ele está estranhão, ele não saiu do lugar. - falei.
-É carinha, faz sentido. - e deu uma cheirada do ar - de onde vem esse cheiro?
-É de lá de cima. - falou Ruéla. E nesse instante a luz deu umas piscadas rápidas. O chão tremeu com um trovão forte, esse deve ter sido perto.
-Chega de bobeira, vamos logo resolver isso antes de amanhecer o dia - hehe, agora pareci f*da e corajoso, mas estou quase me c*gando de medo na realidade.
 Começamos a subir a escada e ouvi atrás um barulho igual de mudo quando quer falar, tipo um "hummmm!!!" viramos para trás para ver o que era, e nos assustamos. O Jack da Granja estava de ponta-cabeça grudado na parede.
-Mas que... - Não deu nem tempo de eu continuar a frase, um rosto escuro sinistro saiu da parede acima do pé do Jack. Senti um choque gelado na barriga quando vi.
-Pega o sal! - gritou o saci. Agora quero ver quem vai ser o corajoso a descer a escada e ficar frente à frente com aquela coisa.
  Um olhou para a cara do outro, mas ninguém desceu. Então a coisa desapareceu de volta na parede, soltando o Jack da Granja que caiu igual a um saco de batatas no chão. Puf!
 -Vocês viram isso, carinhas? Loucura! - Tiago Saci estava com cara de espanto - Já vi carinha receber entidade e tocar o terror, mas isso aqui tá em outro nível!
-O que você quer dizer com isso? -perguntei - Que você também não sabe como resolver, é isso?
-Não carinha - mudou novamente para aquela expressão de calmo-chapado - serviço dado é serviço cumprido. Mas vai custar só mais uma garrafinha, sabe como é?
  Acho que estou sendo explorado. Daqui a pouco ele vai ver a porcaria da mão e vai querer levar minha geladeira embora, querem apostar quanto?
 O vento do lado de fora ficava mais forte, dava pra ouvir o barulho de dentro. Os trovões também se tornavam mais constantes.
-Ei vamos no seu quarto, foi no teu banheiro que a parada começou, não é? - disse Ruéla. Apenas acenei com a cabeça.
  Chegando lá acendi a luz, entramos e eu me joguei na cama. Sei que a coisa está feia, mas esse dia já tinha sido demais para mim.
-Ei, cadê a minha mochila? - perguntou Ruéla. - Ela não estava em cima da cama? onde você enfiou ela?
-Caramba, eu estava com você. Por um acaso você viu eu mexer naquela porcaria? - Parando pra pensar, ela estava em cima da cama onde eu me deitei, a ultima vez que eu a vi.
-Droga, tua casa tá assombrada pelo Simão, o fantasma ladrão! - Disse Ruéla indignado.
  Olhei para a porta do quarto para o corredor e tomei um susto, a luz de lá piscou e tinha uma figura sombria na porta. Dessa vez, ainda bem, não era nenhum espectro e sim o Jack da Granja.
-Ei Tiago, cadê você? - falando nisso, onde foi o dono do zumbi?
-Aqui, carinha -  a voz vinha do banheiro. Ruéla foi até lá, ainda resmungando de sua mochila. Levantei-me e fui até lá conferir.
-Ei saci, fala pra esse teu zumbi se movimentar, ele tá sinistrão ali na porta. - Quando cheguei no banheiro, estava aquele cheiro de podre básico. Aquilo invadiu minhas narinas e quase me fez ter ânsias de vômito.
-Caraca, esse cheiro incurtiu aqui - falei.
-Carinha.... eu sei qual o teu problema! - disse o Tiago Saci.
-Qual? - falamos eu e Ruéla juntos.
-Sua casa está assombrada! - Não me diga, cara.
-Disso eu já sabia, foi só por isso que eu topei te chamar - falei. - quero dizer, por isso eu resolvi consultar um especialista!
-Carinha, esse filho da puta roubou a minha carne! - falou ele.
-Mas não era pra atrair o espírito faminto? - perguntei.
-Era carinha, mas sabe como que é, saco vazio não para em pé - falou passando a mão na barriga - e tem os 30 por cento do empresário aqui, sacas?
  Eu já imaginava alguma coisa assim. Nessa cidade só tem cara malandro, sério. Mas de qualquer forma, se ele realmente resolver o problema eu até compro 10 quilos de carne pra ele.
-E eu quero minha mochila. - falou Ruela se agachando para procurar debaixo da cama.
-Pelo menos, acho que nada meu foi furtado. - falei.
-A gente vem pra ajudar e ainda se f*de - falou Ruéla. Eu ri.
  O Tiago Saci estava agachado olhando para o ralo do chuveiro, apenas observando.
-Sinto más energias vindo dos canos, carinhas, essa parada tá muito sinistra!
-E como vamos resolver isso? - perguntei.
-Seguinte, isso tá com cara de trabalho feito. - prosseguiu o Saci - E pelo que sinto tá vindo lá de baixo. Vamos ter que remover a paradinha louca que causa isso e jogar em um rio.
-Como assim lá em baixo? - perguntei novamente.
-Simples carinha, eles vêm do esgoto! - falou ele.
  Novamente caiu um trovão, mais perto ainda e estremeceu a banheiro. Eu falo que isso está parecendo filme. Tipo um clichê, bem na hora que você fala algo: Bum!
-Certo, mas como vamos resolver isso? - perguntou Ruéla. Ele parecia mais curioso que eu.
-Carinha, vamos precisar do sal grosso e de lanternas potentes. Você tem lanternas aí, Castrinho meu chapa? - perguntou Saci.
 -Acho que deve ter na garagem. - falei.
-Eu só quero minha mochila de volta... - resmungava ainda o Ruéla, que catou a barrinha de ferro que estava no chão do quarto, a mesma que acertou no próprio pé.
 Saímos do quarto e o Jack da Granja ainda estava lá parado. Esse cara já está me dando arrepios, tá muito estranho mesmo, gente. Depois que o Tiago Saci saiu, ele foi atrás dele igual à um cachorrinho. Será que rola mesmo essa parada de zumbi? que lance bizarro.
  Chegando no andar de baixo, pegamos o sal grosso na mesa da cozinha, o Tiago Saci pegou outra garrafa de cachaça e mais uma vez abriu ela e começou a dar goladas no gargalo. Depois fomos para fora, em direção à oficininha no fundo da garagem, onde eu penso estarem as lanternas do meu pai. Quando saímos de casa, pude perceber como estava forte o vento, tive que por o braço na frente dos olhos para não entrar ciscos que o vento trazia. De repente, enquanto virávamos a esquina do quintal de casa, um telha caiu com tudo ao lado do Ruéla.
-Caramba, carinha, você viu isso? - Nisso um relâmpago assustou todo mundo, menos o Jack da Granja - quase que essa telha falece o Ruélinha. - disse Tiago Saci.
-Caramba Castro, vocês compraram uma casa podre, né? - disse Ruéla.
  Então, não sei por qual razão, decidi olhar para cima, em direção de onde provavelmente caiu a telha. Foi aí que tomei um tremendo susto. Tinha um vulto no alto do telhado, olhando para mim com aqueles olhos brilhantes iguais os de gatos.
-Ahhh! - gritei.
-O que foi? - Perguntou Ruéla, olhando para cima também e dando um pulo quando também percebeu a figura. Após isso, o que quer que tenha sido lá em cima, apenas se escondeu de nossas vistas.
-Vo-você viu aquilo? - perguntou o Ruéla. Eu apenas acenei com a cabeça, boquiaberto.
-O que, carinha? - perguntou o Tiago Saci.
-Tinha alguém lá em cima! - o Ruéla falou.
-Carinha, eles já perceberam o que a gente vai fazer, tá ligado - e deu um gole na garrafa - melhor se apressar se não a coisa vai ficar feia!
-Feia como? - perguntei, engolindo seco.
-Se você bobear, a próxima telha vai ser na sua cabecinha - disse Saci. Apenas encarei o Ruéla, ele estava com os olhos esbugalhados de medo. Depois disso, me afastei um pouco do rumo do telhado, e fui acompanhado pelo resto do pessoal.
-Mas aí, Saci - perguntei - o que vamos fazer com sal grosso e lanternas?
-Carinha, o sal grosso vai ser pra gente se proteger das paradas, tá ligado? E as lanternas é pra gente enxergar o caminho.
-Que caminho? - perguntou Ruéla, na minha frente.
-Do esgoto, oras! - respondeu ele.
-Quê?! - falamos juntos, eu e Ruéla.
-Paciência, galerinha. - falou o Saci, após dar outra golada na garrafa - tem paradas na vida que a gente tem que fazer, porque se não, as paradinhas não ficam feitas, tais ligados? - Acho que a cachaça tá fazendo efeito nele.
-P*rra velho, mas esgoto? Fala sério. - reclamei. Nisso um grito horrível vindo do alto da casa pôde ser ouvido, mesmo com o barulho do vento forte. Todo mundo se assustou com o grito, mas felizmente já estávamos na porta da oficina. Pus a chave rapidamente embaixo e levantei a porta de enrolar. Acendi a luz, e pude ver uma lanterna daquelas bem potentes em cima do balcão abaixo do quadro de ferramentas.
-Ae carinha, tinha até me esquecido. Vai precisar também de uma barra de aço ou um pé de cabra para abrir a tampa do bueiro! - Disse o Saci. Quando ele falou do esgoto eu ainda não tinha parado para pensar direito. Putz, entrar em um bueiro? Pesadelo total.
-Pô, Tiago, tem certeza disso? Aquilo lá deve estar cheio de merda da rua inteira. - falei.
-Caraca, tá louco de entrar num negócio desses? Se minha mãe descobrir ela me mata! - completou Ruéla.
-Carinhas, carinhas. Quem fez o trabalho também teve que entrar no esgoto. Então, temos que tirar de lá! - disse Saci.
-Mas que.... - m*rda, pensei, mas não falei.
-É isso, ou conviver com aquelas paradas loucas, carinhas - disse o Saci - mais hora, menos hora elas vão querer levar alguém embora. - Engoli seco.
-Então, Castro -disse Ruéla - Foi muito bom te conhecer, prezo muito sua amizade, mas vou indo nessa.
-Que isso carinha, não vai que você vai levar coisa junto! - disse Saci, e imediatamente o Ruéla brecou.
-Como é que é? - perguntou o Ruéla.
-Você teve contato com aquela coisa que eu sei - prosseguiu Saci - você está emanando muitos fluídos negativos, tem que descarregar isso!
  Ruéla acabou concordando em ajudar, e eu... bom, que escolha tenho eu? Melhor se apressar e resolver, mesmo que tenha que tomar um banho bem tomado e tomar uma injeção ou outra, mas pelo menos vou estar à salvo.O Tiago deu as coisas pro Jack da Granja carregar, haviam além daquela, mais 2 lanternas menores, e também encontrei um pé de cabra. Achei que o zumbizinho fosse desmontar carregando tudo aquilo, haha. Desliguei a luz e fechei a porta novamente. Saímos correndo para a frente de casa, pois o temporal se aproximava cada vez mais, e além disso, tinha aquela coisa no telhado. Ao sair na rua, olhei para a casa da cafetina maldita dos infernos, não tinha ninguém na frente, também pudera, além da tempestade à caminho, já devia ser muito tarde. Andamos um pouco para o lado da rua e encontramos a tampa do bueiro, bem no meio da rua, abaixo de uma grande árvore. Como não tinha uma pessoa sequer na rua, facilitou para nós o serviço.
-Bom, galerinha, é isso! Agora mãos à obra! - disse Tiago Saci.


por: Nando Bonvento


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