sábado, 31 de agosto de 2013

Conto: Belzac

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  De um lado, um comandante que carrega as marcas de anos de batalhas, junto de sua companhia. Do outro, sinistras criaturas devoradoras de homens que se esgueiram pelas montanhas: os trolls. Leia agora este conto ambientado no período medieval.
_Comandante, nenhum sinal de avanço das tropas pelo leste, acho que vamos poder acampar por aqui hoje.
Com a armadura completa, Belzac estava em alerta na fronteira já havia mais de quatorze dias e nenhum sinal de avanço inimigo, mas ainda assim havia algo de muito inquietante naquele silêncio que se deslocava como uma serpente montanhas abaixo e acima.
O inverno fora como uma faca que penetrava na carne de seus homens dificultando a marcha quando anoitecia; o frio arrebatara mais de oito soldados e o sono parecia cada vez mais difícil. Mesmo para ele próprio que era um homem duro por causa das perdas da guerra. Não dormira quase nada na última noite e agora que mais uma lua minguante pendia ominosamente de nuvens enegrecidas, pensava em ficar de vigia enquanto alguns de seus homens descansavam sob os cobertores quentes.
Era uma questão de sobrevivência, aprendera anos antes quando ele próprio era um soldado jovem que o mundo era um lugar duro, e que somente aqueles que fossem mais duros, resistentes como os rochedos daquele vale poderiam sobreviver da melhor forma. O duro baque de uma espada contra seu elmo em seus anos tardios no exército de defesa do palácio lhe havia deixado uma feia cicatriz no olho esquerdo; perdera-o completamente, ficando cego e com um buraco no rosto. Ainda para deixar sua aparência mais desagradável, o corte se prolongava até as proximidades de seu nariz. O osso de sua face havia sofrido grande impacto e nunca mais fora o mesmo. Ele ainda podia sentir dores em dias de chuva, mas hoje aquela dor característica parecia indicar alguma outra coisa.
_Dispensado, soldado. _Disse olhando para um novato perto da fogueira.
_Senhor. Sim, senhor. _Se retirou e entrou em uma das barracas improvisadas.

As ruínas eram de uma beleza rara naquela terra no extremo Norte de Meidigar. Algumas construções haviam sido derrubadas em uma guerra a mais de cinquenta anos e nunca foram reerguidas, deixando alguns buracos escuros no chão; sob os escombros alguns animais viviam sem se preocuparem com nada além de sua própria sobrevivência.

_Senhor, não há nada na região oeste. Um de nossos batedores voltou e mandou que eu notificasse que não há nada de anormal.
_E por que ele não veio pessoalmente me dizer estas coisas, soldado. _Disse Belzac encarando o outro soldado.
_Eu não pensei que...
_Você não deve pensar, soldado. A não ser que eu o mande fazê-lo. _interrompeu Belzac.
_Senhor, sim senhor!
_Imagine se eu quisesse saber de alguns detalhes que poderiam ter passado desapercebidos enquanto o batedor caminhava por aquele lado? _Ele se aproximava lentamente do soldado que agora estava pálido.
_Eu não poderia dizer, senhor. _Admitiu o soldado.
_Formidável. Agora vá chamá-lo para me fazer um relatório completo, antes que você tenha de ficar sem almoço amanhã ou qualquer outra punição que eu possa pensar.
_Senhor, sim senhor!_O soldado se retirou às pressas em direção ao batedor.

Respeito pelo medo. Ele tinha a impressão de que seus homens falavam a seu respeito. O temiam e por isso o respeitavam. Era um fator simples: Medo gera respeito, e o respeito mantém a ordem dentro de um exército que pode decidir os rumos de um reino inteiro. O batedor votou em pouco tempo e começou a fazer o relatório.

_...E não havia nada além de alguns galhos quebrados no meio dos escombros perto de onde era o templo da sacerdotisa, mas não acho que isso queira dizer alguma coisa, senhor...
_Quando eu quiser sua opinião eu certamente vou pedi-la, soldado.

O batedor respondeu com um silêncio frio.
_Os galhos eram de um tom avermelhado? Ou talvez de um marrom escuro como o a terra deste trecho? Sabe me dizer de que tipo de árvore eram?
_Eram de um tom vermelho desgastado, senhor. Nada além disso, senhor.
_Bom, então imagino que você talvez tenha estudado um pouco a respeito da história desta região, não é soldado?
_Senhor, não senhor.
_Formidável, um soldado sincero. _Disse-lhe em tom de escárnio. _Muito bom, soldado... Imagine, só por alguns momentos que você houvesse estudado com bastante cautela os documentos que eu pedi para antes desta viagem, sabe me dizer o que havia naqueles documentos? Desta vez lhe dou liberdade de dar sua opinião, agora vamos!
_Eu... _Parecia indeciso, mas continuou quando o comandante fez um gesto impaciente com a mão. _Não achei que fosse importante, senhor. Os documentos descrevem uma cadeia de montanhas além deste vale, além disso os mapas dizem que não é uma região onde podemos encontrar muita água, por que os rios estão congelados...
_Muito bom, soldado. _Dizia Belzac passando a mão pela barba rala no maxilar. _Agora me diga: Por um acaso você leu a respeito dos problemas que têm acontecido pela região?
_Não, senhor.
_Bom, se você tivesse lido os documentos e preparado tudo conforme eu havia dito, teria percebido que estes galhos vermelhos podem indicar que há trolls das montanhas caminhando fora de época por aqui. Talvez possam estar se aproximando neste momento; e imagine só: Alguns de seus companheiros de combate podem morrer por causa de um descuido deste tamanho.
O soldado não respondeu.
_Amanhã você ficará sem seu almoço. Dispensado.
_Senhor, sim senhor.

Fez uma mesura e saiu remoendo sua própria raiva.
Estava cercado de incompetentes. Agora precisava se preocupar com um ataque de trolls, como se não fosse o bastante aquela guerra que chupava todos os recursos de que o reino dispunha. O preço dos grãos tinha subido exacerbadamente a tal ponto que os cidadãos estavam morrendo de fome, e enquanto isso o reino era lavado com sangue.
Ele próprio tivera de decapitar um dos aldeões acusados de conspiração contra a coroa. Não gostava de fazê-lo mais do que ir à caça, mas fora uma ordem da rainha.
Agora estava com frio e inquieto por alguma razão inexplicável. Era algo no ambiente que corria de maneira errada... O silêncio se prolongara por muito tempo, as aves que normalmente faziam muito barulho àquela hora da noite não haviam demonstrado nenhum sinal de vida. Um vento sublime percorreu a beira do mar e varreu os sedimentos para perto da fogueira, o fogo refolegou-se ergueu-se mais alto permitindo uma visão além do alcance por alguns segundos, e foi quando Balzac percebeu: Alguma coisa havia brilhado debaixo dos escombros ao longe da fogueira alguma coisa se movera discretamente enquanto os soldados não percebiam. Belzac imediatamente apanhou uma tocha das mãos de um soldado qualquer no caminho e foi direto para aquela abertura no meio de blocos de pedra; iluminou o escuro com o fogo a tempo de perceber que algo ou alguém se movera depressa, ou algum soldado estava brincando de gato e rato ou simplesmente haveria algum rato esperando o momento oportuno para roubar alguns pedaços de comida dos soldados distraídos. Mas acima de qualquer coisa, Belzac tinha a impressão de que havia algo de errado com aquele lugar, uma sensação desagradável de que estava sendo observado por alguma coisa, e foi com este pensamento que levou a tocha até outro ponto onde havia uma abertura abaixo de uma casa caída, a qual levaria a um túnel subterrâneo; moveu-se rapidamente atraindo os olhares de alguns soldados. Sumiu debaixo dos escombros sozinho.

_Hey, Flit. Não seria uma boa ideia se ele não voltasse mais de lá de baixo? _Brincou um soldado com o batedor que fora punido a pouco tempo.
_Fale mais baixo Murdock. _Sussurrou ele. _Se o comandante escutar o que você disse isso pode me custar os molares. Além do mais...
Foram interrompidos por um ganido logo abaixo de seus pés, seguido pelo praguejar do comandante que ecoou por várias aberturas dos escombros. Vários homens se moveram em direção à casa de pedra caída e invadiram os túneis subterrâneos; e mais cedo do que esperavam Belzac emergiu com a tocha na mão e embainhando a espada com a outra.
Belzac havia encontrado uma ratazana gorda que o mordera quando fora acuada, o que causara o praguejar que ouviram nos níveis baixos. Não deixava de ser engraçado, mas ninguém ousava rir ou as consequências poderiam ser catastróficas. Não era nenhuma novidade o fato de que Belzac não tinha nenhum senso de humor a maior parte do tempo e, quando o demonstrava era de maneira sádica.
O comandante percebeu que talvez estivesse imaginando coisas por causa da falta de sono e decidiu que era uma ótima ideia dormir um pouco para variar e pensar em qual rota seria melhor para o próximo dia, pois os suprimentos estavam se esgotando e logo seriam forçados a buscarem por recursos dentro da floresta.
_Homens! Aproximem-se neste momento! _Belzac mal tinha terminado de dar sua ordem e grande parte dos soldados já se reunira a sua volta.
_Há uma boa chance de que encontremos trolls das montanhas esta madrugada, por que esta é a época em que eles descem das montanhas por causa do frio. Então acho que é uma ótima hora para que todos se preparem da melhor forma que puderem. Alguém sabe me dizer o que pode espantar alguma destas bestas?
_Uma lança!
Alguém gritou no meio da multidão.
_Boa tentativa, soldado, mas uma lança não seria diferente de uma agulha de roca! O que nós precisamos é de fogo. Fogo vermelho e quente que possa espantá-los para longe, mas por causa dos últimos acontecimentos fora de Meiggar, as criaturas têm agido de forma estranha, por isso é bom que nos preparemos para um confronto direto!
“Acendam mais uma fogueira no fim do acampamento e deixem suas espadas por perto ou o preço pode ser a vida de vocês. Dispensados!
_Senhor, sim senhor. _Bradou a multidão.

Em pouco tempo alguns dos convocados para o serviço começaram a cortar uma árvore seca para utilizá-la como lenha, graças ao óleo de salamandra foi fácil acender o fogo e acalmar um pouco aquele pressentimento ruim de Belzac, que possuía sangue de Bárbaros e que não se enganava em campos de batalha.
Logo o fogo lançava suas labaredas e dançava conforme o ritmo soturno do vento. Alguns insetos adejavam e voejavam sobre as copas das árvores preenchendo o ambiente escuro com vida repentinamente; uma mudança sublime, mas ao mesmo tempo amainou aquele pensamento problemático do comandante que agora caía em um sono pesado sem precedentes. Dormiu um sono de sombras, seus sonhos foram de fogo de dragões, sonhos com mentirosos de seu passado, e sonhos com coisas que talvez ainda estivessem por vir.
***
_Flit, eu acho que vou vencer mais essa rodada. Você consegue um número maior do que esse?
Os soldados jogavam enquanto o comandante dormia profundamente em sua barraca cheia de mapas e estratégias que pouco lhes interessava. Flit lançou os dados mais uma vez e para a surpresa dos outros na roda ele acabou levando a melhor.
_Maldição. Perdi a minha última moeda agora, não tenho mais nem um florim. _Quixava-se Mart.
Ficaram em silêncio por alguns momentos enquanto Flit recolhia seu prêmio. Pouco depois ele fitou os colegas, e olhando para Mart perguntou:
_Vocês acreditaram naquela estória do comandante sobre trolls das montanhas? Eu nunca vi nenhum monstro deste tipo até hoje.
_É por que você é feio demais, Flit. Acaba assustando até mesmo os trolls que vivem nos pântanos perto de Meiggar. _Um dos colegas explodiu em risos. Afinal, o vinho começava a fazer efeito. Quando finalmente os risos cessaram, ele continuou.
_Eu não acredito que hajam criaturas deste tamanho nos dias de hoje. Talvez antigamente, mas hoje eu penso que essas coisas não existem mais.
_Não é por que você nunca viu alguma coisa que quer dizer que ela não exista, afinal nós respiramos o ar, sabemos que ele existe, mas não podemos vê-lo, não é verdade?_Provocou Mart.
_Mas..._Continuou Flit como se não tivesse ouvido o amigo._Não ei, simplesmente não sei. As estórias são estranhas demais aqui no Norte.
Mart bebeu mais um pouco do vinho de uma caneca e depois depositou-a no chão perto da pequena fogueira armada no centro da roda de soldados.
_O Rui disse que viu alguma coisa grande antes de nos separarmos já faz mais de uma quinzena. Disse que um monstro andava comendo alguns cordeiros de sua fazenda durante a noite, e que talvez medisse mais do que dez metros de altura, mas vocês sabem como ele gosta de exagerar com essas coisas, não é? _Os outros deram só um grunhido como resposta e a conversa morreu ali naquele mesmo ponto. Se aproximaram da fogueira, pois o frio mordiscava-os e impedia a chegada do sono; um corvo desceu perto da fogueira e começou a mordiscar um pedaço de carne jogada ao chão, despreocupado enquanto os homens se aqueciam perto do fogo.
_Eu ouvi dizer que algumas cidades caíram há uma dezena._Continuou Dementos, um soldado magricela que era um deslocado no exército. Só fora recrutado por suas habilidades de caça e de rastreamento no meio de florestas.
_Sim, perto de onde um tal de Taoros matou Aurium. Aquele dragão devia ser um dos últimos vivos nos dias de hoje. _Continuou Flit. _Pelo que fiquei sabendo a cidade está festejando sua morte até agora.
_Eu não gostaria de ir para aqueles lados, Flit. _Mart pareceu despertar de seu sono. _A peste vermelha anda matando muita gente perto daquele trecho; o conselho branco anda tendo problemas para lidar com tantos problemas...
Ficou quieto de repente.

_Vocês ouviram isso?
_Se eu bem conheço você, Mart, acho que esse é o som do vinho na sua cabeça. _Provocou Flit. Um pouco de riso seguiu este comentário.
_Não, não! É sério, parece que ouvi alguma coisa.
Todos ficaram em silêncio e contemplaram o vazio das montanhas. E ouviram um gemido que parecia se prolongar por trás de algum horizonte distante. Um arrepio desceu pelas costas de Mart.
_Eu acho melhor deixarmos as espadas e os arcos preparados para alguma coisa ruim esta noite.
***
Belzac despertou em sua barraca quando ouviu os soldados em movimento do lado de fora. Moviam-se em passadas largas como se algo estivesse muito errado; saiu da barraca e viu que muitos se aproximavam das fogueiras a leste e a oeste com armas desembainhadas e arcos prontos para disparar flechas. Montou em seu cavalo e partiu em direção à fogueira ao oeste, onde encontrou os soldados emaranhados, confabulando sobre diversos assuntos ao mesmo tempo, o que gerava o mais perfeito caos.
_O que está acontecendo? Alguém pelos oito infernos pode me dizer o que é todo este movimento?
_Alguns homens ouviram um tipo de choro perto das montanhas, dizem que pode ser que alguns trolls realmente venham a aparecer enquanto acampamos, mas outros dizem que não é nada além do vento fazendo ruídos fortes do outro lado. Aguardamos ordens. _Flitz só diria o necessário. Não queria perder o jantar do dia seguinte também.
_Digam aos arqueiros para assumirem seus postos e para os lanceiros me seguirem para o ponto alto da montanha a sudeste; de lá vamos ter uma visão melhor do que está realmente acontecendo...
Os arqueiros assumiram suas posições atrás de algumas das carroças e carruagens; os arqueiros banharam algumas de suas flechas com óleo de salamandra e aguardavam o sinal do comandante enquanto os lanceiros assumiam a fronte em caso de algum embate com o exército inimigo.
A companhia se surpreendeu quando percebeu que algumas formas emergiam da escuridão logo à frente. Os corpos curvados de criaturas gigantes moviam-se na direção dos escombros e do acampamento dos soldados. Aquilo começou a causar pânico na companhia, mas logo foram controlados por Belzac.
_O primeiro a sair da formação vai ter a cabeça decepada! _Disse enquanto percorria a fileira com seu cavalo. _Assumam suas posições, já! E rezem para que estes trolls estejam somente fazendo sua travessia. Agora vamos, meninas! _Desapareceu cavalgando para o outro lado.
O primeiro dos monstros a surgir perto de uma das fogueiras era provavelmente o líder do bando, pois seus pelos eram de um branco carregado de lama, um nariz sobressalente apontava-lhe da face, acima de uma bocarra com dentes afiados e pontiagudos como os de algum preda
dor terrível. Os dedos de suas mãos (quatro no total) eram compostos por garras do tamanho de um antebraço humano e se arrastavam pelo chão em um caminhar desajeitado.
A criatura caminhou até mais adiante e ergueu uma pedra colossal como se fosse uma pluma, lançando-a na direção da primeira fileira de soldados. A rocha parou a poucos metros de onde alguns lanceiros mantinham posição firme.
Um cavaleiro com uma tocha acesa passou acendendo as setas que seriam disparadas; assim um turbilhão de pontas faiscantes iluminou aquele ambiente tomados pela escuridão. O retesar das cordas de arcos podia ser ouvido ao longe, mas Belzac deu sua ordem firme:
_Não se movam!_Disse com veemência. _Ainda não.
Mais uma pedra foi atirada e esta parou perigosamente perto dos lanceiros. A hora era aquela.
_Arqueiros, disparem!
Uma chuva de fogo irrompeu no campo de batalha e alguns dos monstros foram atingidos por setas incandescentes. O líder do grupo de bestas gemeu, mas arrancou as setas de seu couro cabeludo sem muito esforço e continuou avançando enquanto mais rajadas de setas eram disparadas; assim a chuva de fogo continuou até que o avanço das bestas ultrapassou o início do acampamento.
_Lanceiros, preparar para a defesa!
O que se seguiu foi um massacre, onde humanos espetavam o couro das bestas, mas eram socados para longe de sua companhia com movimentos bruscos; atrás da companhia de lanceiros, os espadachins batiam as espadas contra os escudos produzindo um estrondo aterrorizante.
Partiram enfim a última fileira de guerreiros na direção das bestas que somavam em dez. Belzac aproximou-se demais do líder do grupo de trolls e seu cavalo sofreu um terrível golpe de uma das garras e teve seu pescoço retalhado. O comandante foi lançado alguns metros para trás, mas levantou-se aparentemente ileso e praguejando. O líder do bando se afastou para outro lado enquanto agredia violentamente os soldados os Oliphantes: Como eram animais grandes demais para que se confrontasse de frente, o segredo estava em atingir os tendões das pernas e fazê-los tombar, e assim, mesmo sendo maiores do que uma casa quando finalmente chegavam ao chão era ais fácil de abatê-los. Com aquelas bestas seria provavelmente a mesma coisa. Belzac ainda tentou erguer seu cavalo, mas fui inútil; o sangue de seu corcel já se havia esvaído quase totalmente pelo corte e os olhos vazios do animal fitavam o céu, sem vida. Ele logo viu outro cavalo em pânico no meio do tumulto e apanhou-o pelas rédeas e começou a gritar enquanto galopava pela companhia:

_Acertem os tendões da perna, na parte de trás seus asnos! Contra bestas deste tamanho é inútil um confronto direto! Andem! Nas pernas! PELOS OITO INFERNOS, NAS MALDITAS PERNAS! _Gritou com todas as forças, mas os soldados não pareciam dar ouvidos, salvo alguns poucos que mudavam de estratégia.
Uma rajada de flechas acesas atingiu o líder do grupo de trolls que ficou atordoado por alguns segundos.
Perfeito.
Belzac avançou por trás do grande animal e deferiu um golpe certeiro na dobra da perna. Com efeito, o líder já ensanguentado do grupo de trolls caiu sonoramente de joelhos ante a um brado dos soldados em confronto. Um lanceiro perfurou-lhe a garganta e este foi o fim daquele monstro; soltou um gemido profundo antes de abandonar a vida.
Faltavam nove...
_AS PERNAS SÃO O PONTO FRACO, SEUS ASNOS! DERRUBEM-NOS AGORA!!
Aquilo pareceu despertar alguns soldados do transe no meio do confronto e a companhia começou novamente o ataque direcionando-o contra algumas das bestas na parte mais distante; um troll com raízes pelo corpo continuava a socar os soldados pelo caminho, mas Foi só questão de tempo até que um dos soldados se esgueirasse por trás e cortasse o vão de uma das pernas arrebatando-o contra o chão novamente. Outro ainda foi atingido no olho por uma seta incandescente e morreu quando alguns dos lanceiros lhe perfuraram o coração.
Uma rocha relativamente grande aterrissou perigosamente perto de Belzac quando ele terminava de executar uma das bestas no chão.
Mesmo naquele ambiente violento e caótico, Belzac podia se lembrar do que aprendera em confrontos durante mais de trinta anos de sua vida: O risco de vida era sempre grande e o simples fato de se ser um soldado significava servir até a morte, sem saber se voltaria vivo algum dia para casa. Enfim, aquilo serviu para dar-lhe novo ânimo; com um grito distribuiu novas ordens.
_ARQUEIROS! MAIS UMA VEZ! MIREM NOS OLHOS!
No meio do caos alguns arqueiros disparavam flechas acesas, mas poucas atingiam o alvo em movimento. Um troll truculento apanhou um arqueiro que se aproximou de mais e mordeu metade de seu corpo lançando o resto com entranhas pendente ao chão, o baque espantou um cavalo que saiu em disparo com um espadachim sendo arrastado pelo estribo. A besta fitava Belzac por alguma razão. Talvez fosse por que fora ele o responsável pelo líder do bando, e o comandante sabia que trolls eram capazes de pensar, inclusive alguns possuíam mais de uma cabeça, o que era relativamente raro, mas ainda sim conseguiam pensar e bolar algumas estratégias mais simples. Felizmente eram estúpidos demais para pensarem em planos mais complexos.
Belzac pressentiu o perigo e se preparou para o combate: Desceu do cavalo, que não seria nada além de um peso naquela hora e pegou o arco do arqueiro que jazia morto e sem metade do corpo no chão. Usou seu único olho bom para acertar a mira enquanto a besta se aproximava rugindo no meio do caos. Quando o troll levantou uma pedra do tamanho de um cavalo e tentou lançá-la, Belzac disparou uma flecha na bocarra que permanecia aberta; foi o suficiente para que a criatura desabasse com a pedra sobre sua cabeça. A morte foi instantânea.
Dos dez trolls que haviam invadido o acampamento agora sobravam somente dois em pé, e ainda representavam uma séria ameaça aos homens. Algumas flechas atingiram o outro troll no rosto distorcido fazendo-o erguer seus braços em um gesto defensivo. Caiu como os outros. O último foi morto por um lanceiro que lhe atravessou a garganta com a ponta da lança que se quebrou; caiu chutando e dando patadas, mas felizmente morreu sem mais delongas.
O grito da vitória de seus homens pôde ser ouvido muito além do vale.
***
Quando o sol nasceu os corpos das criaturas se transformaram em pedra, o que impressionou muito alguns dos soldados que haviam sobrevivido ao embate, já outros estavam mais preocupados com os próprios ferimentos. O próprio Belzac tinha com o que se preocupar: Uma lasca de madeira havia sido enterrada na lateral de sua perna, pouco acima do joelho. Com os dentes cerrados, puxou-a e praguejou de dor debaixo de uma árvore seca.
_Hey, Flitz!_Bradou o comandante.
_Senhor, sim senhor!_Aproximou-se esperando por suas ordens.
_Tenho um acordo para você soldado._Disse apontando para a bebida que ele carregava em seu cinto. _Use a sua bebida para desinfetar o meu ferimento na perna e me ponha algumas bandagens e o meu almoço é seu.
Um pouco receoso, Flitz se aproximou. Dobrou o cinto de couro e ofereceu-o ao comandante.
_Senhor, o senhor vai precisar.
Com um lampejo nos olhos, Belzac compreendeu perfeitamente.
Mordeu o cinto com os dentes da frente. Flitz retirou a parte da armadura de guerra e rasgou o tecido da calça; a perfuração era séria, mas nada impossível de ser tratado. Olhou para o comandante mais uma vez, e Belzac fez um gesto afirmativo com a cabeça para indicar que estava pronto. Com um leve inclinar do pulso, Flitz despejou um pouco da bebida a base de álcool no ferimento do comandante que cerrou os dentes com mais força e urrou de dor enquanto batia com o punho fechado no chão. Depois disto começou a amarrar as bandagens lentamente tentando evitar que um sangramento sério recomeçasse. Quando terminou, seu comandante tomou a palavra.

_Muito bom, soldado. Trato é trato. Você vai ter o seu almoço de volta por hoje.
_Pensei que o senhor tivesse dito que eu teria o seu almoço hoje. _Disse Flitz com meio sorriso formado.
_Eu disse isso? _Comentou Belzac com escárnio. _Não me lembro de ter dito tamanha besteira, soldado. Pode ter seu almoço hoje e se sinta grato por isso.
Flitz foi embora com o mesmo sorriso. O senso de humor do comandante era realmente estranho. Mas aquilo já não importava. Haviam sobrevivido ao confronto e já era o suficiente.
Belzac deixou sua cabeça cair no tronco da árvore, inspirou profundamente e descansou por alguns instantes. Pouco tempo depois Mart veio com o relatório que lhe havia sido requisitado.
_Quinhentos mortos até agora, Senhor. Todas as bestas se solidificaram e o fogo parece estar sobre controle.
_Formidável, soldado. Agora diga aos homens para descansarem esta manhã. A tarde vamos ter de queimar os corpos dos mortos em uma pira, pois não temos como carregar tantos de volta para Meiggar. Dispensado.
_Senhor, sim senhor!_E saiu mancando.

A seguir, quando todos haviam comido o pão e o vinho que lhes havia sobrado, queimaram os cadáveres dos companheiros em uma pira enquanto alguns faziam suas preces para que jamais tivessem de encarar algum conflito como aquele novamente. Belzac assistiu a tudo debaixo da árvore, pois não conseguia caminhar direito com aquela perna.

_Flitz! _Gritou novamente o comandante para o batedor que passava por perto.
_Senhor, sim senhor!
_Prepare um corvo e mande uma mensagem para o rei e diga que estamos voltando. Cumprimos o nosso dever.
_Senhor...? _Parou. Sabia que não era uma boa ideia questionar o comandante. No entanto, ele sabia que o preço por insubordinação era alto, e suas ordens haviam sido para contornar a área e impedir o avanço dos exércitos do inimigo.
_Ora, vamos!_Disse Belzac irritado. _As ordens foram para impedir o avanço das linhas inimigas e foi o que fizemos. Com o número de feridos que temos e as perdas não há nada mais que possamos fazer por hora. Voltaremos e repensaremos em uma estratégia caso haja algum conflito parecido com este. Agora, soldado! Vá!
_Senhor, sim senhor!
***
Quando voltaram ao reino de Meiggar foram recebidos como heróis, e as esposas dos mortos choraram pelas perdas.
Bem no meio do festivo, com um cavalo emprestado, Belzac pensou amargamente.
Mais um dia vivo, agora preciso saber qual será minha punição por me preocupar com minha companhia.  



por: Luigi C. Domani





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